Retomando o assunto Maternidade e Carreira, impossível não lembrar a entrevista que que fizemos com Ana Clara, a autora de um blog referência sobre o mundo corporativo que arrebata uma infinidade de fãs e seguidores com sua sensibilidade e perspicácia. Executiva de RH, usa de forma anônima o blog A Monga e a Executiva (amongaeaexecutiva.blogspot.com) para descrever como poucos o cotidiano das empresas de forma leve, ágil e cômica. Nessa entrevista exclusiva para o Mamatraca, ela abriu seu coração e tirou a sua proteção de Monga em que fala sobre maternidade e carreira.
Monga, apresente-se. De que ponto de vista você fala de maternidade e carreira: da sua própria experiência ou da sua vivência como consultora na área de RH?
A Monga é uma personagem que eu (Ana Clara, uma executiva de 35 anos) empresto a um montão de pessoas para compartilhar os momentos mais intensos da minha rotina, seja romanceando situações reais, ou refletindo sobre aspectos prosaicos que acontecem no palco das empresas. Minha experiência na área de Gestão de Carreira é um grande mergulho na afetividade das pessoas. É só desta forma que eu concretizo qualquer possibilidade de mudança, de obtenção de metas e de satisfação profissional. Maternidade e carreira quase sempre são encaradas como situações conflitantes no campo de interesses do coração. Esta eterna dicotomia vem com uma cerejinha pro bolo da vida apressada: o sentimento de culpa (este grande ladrão da felicidade). As situações as quais vivencio, as mulheres que conheço, as mães com quem convivo, me ensinam preciosas lições de sobrevivência.
O dilema carreira X maternidade é um dos causadores das maiores angústias entre as mulheres. No seu caso, não ter filhos foi uma opção para poder se dedicar à carreira?
Ter ou não ter filhos, no meu caso, não passou pela análise de carreira. Na minha história pessoal tenho tentado há muitos anos firmar minha condição de filha. Minha mãe abdicou da convivência dos filhos para cuidar daquilo que lhe pareceu satisfazer a alma durante 30 anos: sua carreira como socióloga, educadora e política. É uma mulher fálica, forte, comandante de grandes feitos e bancou sua escolha sem grandes traumas. Quando dei licença às minhas emoções, me enxerguei espelhada neste modelo de mulher empreendedora, executiva, líder, mas com necessidade de resgatar o amor materno emprestando meu carinho e minhas idéias sobre conciliação de objetivos para muitas mulheres que fazem parte da minha rotina. O sucesso não é um orfanato para os filhos. Se assim o for, teremos adultos com lideranças impositivas e quase nunca afetivas.
Mas você acha possível conciliar carreira e maternidade?
Enquanto as mulheres enxergarem a carreira como uma subtração da condição materna, será impossível. Reconheço que as empresas não adotam um regime de “aleitamento” emocional a estas mães empurradas às expectativas do mercado... As empresas desejam usufruir até a última gota de produtividade com a desculpa indecente de que vivemos uma época de “poder feminino”. O poder feminino está no sentir.... não no agir, especificamente. Sou chatinha, sou cri cri, não acredito em política de igualdades no terreno corporativo. É justamente reconhecendo as diferenças, as necessidades maternas (por exemplo), que alguma mudança bombástica nos faria sorrir na segunda-feira pela manhã. As mulheres que hoje estão no topo, em sua maioria, admitem que seus filhos tiveram de ser criados por babás ou pelos avós porque elas tiveram que abrir mão da vida pessoal para conseguirem o sucesso profissional.
Você acha que isso tende a mudar nas próximas gerações?
Como em toda estrutura influenciada pela cultura, as mudanças estão nas mãos da Luísa, da Rafaela, e de toda esta criançada cuja capacidade crítica é infinitamente maior do que a nossa. Ao longo dos meus 18 anos de mercado coleciono perguntas interessantes e respostas nada contundentes. Abrir mão dos filhos contradiz o modelo de felicidade profissional no qual acredito. Quando alguém me lança o questionamento “Ah, mas uma mulher dedicada só aos filhos sem ter autonomia e realização profissional é uma mulher frustrada!”. É... pode ser. Se esta mulher deseja efetivamente alavancar sua carreira basta reforçar o vínculo materno. Não tenho fé de ofício para teorizar à luz da Psicologia, mas, nenhuma criança suficientemente acolhida condena a mãe que está ralando todo dia. A cronologia infantil é qualitativa. A cronologia do adulto é a dos ponteiros do relógio. Torço para que as próximas gerações rompam este lacre de “coitadismo” e que as mães se absolvam pelas ausências circunstanciais.
Você consegue identificar de longe uma mulher que é mãe em uma reunião? Como?
Mães não dão suas pistas exclusivamente pelo comportamento. Esta coisa de mãe mastigada igual chiclete, sem vaidade, de roupa amarrotada é uma caricatura irreal. O lugar onde as mães dão seus sinais na corporação é no campo dos sentimentos. As mulheres que tem filhos são as menos disponíveis para o irreconciliável. São as mais francas, são as mais sorridentes, são as menos preocupadas com falhas pequenas, são as mais bonitas. Eu sei o nome de todos os filhos de cada uma das executivas, das funcionárias, das secretárias, das faxineiras, por onde passo diariamente. Uma menção ao filho é a chave-mestra pra funcionalidade plena de uma mulher.
Você ainda vê preconceito por parte das empresas em relação às profissionais que são mães, especialmente as de filhos pequenos?
Já tive discussões intermináveis com CEO’S, com Diretores e Conselheiros de RH. Num de meus rompantes diante da intransigência de certa empresa (que não queria liberar a mãe para uma reunião de escola do filho de 3 anos) eu pontuei de forma nada gentil: “Ok. Se você não quer liberar para atender a um apelo da HUMANIZAÇÃO, o faça encarando como um reconhecimento no investimento de perpetuação da escravidão. Vai lá, libera a sua funcionária porque ela precisa estar com o novo equipamento que em alguns anos vai servir a esta instituição quando ela estiver avariada e sem utilidade”. Lógico que foi uma situação exagerada – mas fica a ilustração. As empresas não se tocam! Simplesmente não se tocam! Encaram a vivência de mães e filhos como “pauta menor”. Na realidade esta é a mais rentável capacitação na qual se pode investir: permitir que as mulheres atuem de corpo e alma no trabalho, sabendo que o “coração externo”, ou seja, o filho, está no ninho, devidamente feliz.
O que é ser uma boa empresa para a mulher que é mãe trabalhar?
Boa empresa não prega cartaz sobre aleitamento materno. Não faz só creche pra distrair nenéns. Não faz festinha junina. Não traz Papai Noel em dezembro. Isso é alegoria circunstancial para distrair os olhos do massacre. Esta é a política que dá benefícios pra te sugar melhor. Fazer cumprir exigências da lei extrapola o terreno de “ser bacaninha”. É obrigação. Boa empresa acolhe. Promove discussões sobre os sentimentos. Paga pela sua performance e também paga por te roubar do filho. Acresce seu salário com a política de compreensão do papel materno. Boa empresa quer saber como teu filho se chama. Boa empresa faz uma adequação de cargos e salários e não te promove a Sênior um ano depois de dar à luz. Não te manda viajar na véspera do feriadão – sabendo que outra pessoa poderia cumprir isso numa boa. Boa empresa sabe que uma mãe é um investimento vitalício – literalmente.