Quinta Feira, 25 Abr. 2013
RENASCIMENTO DO PARTO
A psicóloga e ativista do parto humanizado Erica de Paula e o apresentador de TV Eduardo Chauvet conseguiram esta semana um grande feito. Co-autores do documentário O Renascimento do Parto, que foi todo produzido com recursos próprios e concluído em 2012, eles precisavam de verba para colocar o filme em circuito nacional e mobilizaram as redes sociais pedindo doações. A campanha foi um sucesso absoluto. Em apenas cinco dias, atingiram 100% da meta e arrecadaram quase 70 mil reais, o suficiente para estampar nas telonas de todo o Brasil o longa que discute sobre um problema de extrema importância: a lamentável realidade obstétrica brasileira, que apresenta índices alarmantes de cesarianas e quadros de muita violência em hospitais em todo o país.
O filme, baseado na teoria do cientista e obstetra francês Michel Odent sobre os “hormônios do amor” liberados no trabalho de parto, traz depoimentos como o da antropóloga norte-americana Robbie Davis-Floyd, a parteira mexicana Naoli Vinaver, do ator e diretor de cinema Márcio Garcia e sua esposa, a nutricionista Andréa Santa Rosa, e do próprio Michel Odent. Diversas mães que passaram por cesarianas desnecessárias também contam seus relatos emocionantes. Eduardo, que tem formação em cinema em Filadelfia, dirigiu e editou o filme, enquanto Erica, doula e educadora perinatal, fez o roteiro e a produção. Erica diz que almeja, com O Renascimento do Parto, plantar uma semente na população de que existem lindas opções de parto além de uma cesariana eletiva ou um parto normal violento.
O casal ainda não tem filhos, mas como doula Érica acompanhou diversos partos muito violentos e com procedimentos desnecessários, além de cesarianas mal indicadas e contra a vontade da mulher. Para ela, os mitos são tantos em torno do assunto parto que as mulheres que realmente querem ter um parto normal no Brasil hoje precisam lutar ferrenhamente contra o sistema.
Ontem, ainda celebrando a conquista da meta de arrecadação de recursos que acabava de ser alcançada, Erica concedeu uma entrevista exclusiva ao Mamatraca. Confiram.
Como surgiu a ideia de fazer esse documentário? Houve algum fator específico que motivou vocês a fazer esse filme além, óbvio, da importante causa da luta pela mudança da realidade obstétrica no Brasil?
A ideia surgiu em 2010 a partir de um especial do dia das mães que fizemos para o programa de televisão que o Eduardo (diretor do filme) tem no SBT Brasília. O especial foi um sucesso e resolvemos que o tema poderia ser melhor trabalhado num curta metragem, que logo virou um longa pela complexidade do assunto. Eu estava fazendo diversos cursos na área (como a formação em parto ecológico com o Michel Odent, um dos personagens do filme) e percebendo cada vez mais a urgência desse tema para a sociedade.
O que mais te surpreendeu ao longo desse processo? O que vocês esperam mudar a partir do documentário?
O que mais me surpreendeu foi a proporção que esse projeto atingiu ao longo do tempo e a visibilidade que a própria causa ganhou nos últimos meses, com todas as marchas realizadas no Brasil inteiro pelo direito de escolha da mulher, ganhando a grande mídia, etc. Esperamos que o documentário leve informação de qualidade sobre o tema para a sociedade e ajude a derrubar mitos que se perpetuam até mesmo entre os profissionais de saúde.
Quais são os índices mais assustadores que você destacaria?
O fato das pesquisas indicarem que até 80% das mulheres no início da gestação desejam parto normal, mas que menos de 10% delas conseguem no setor privado. E claro, o índice de violência obstétrica percebido por 1/4 das mulheres, que provavelmente é muito maior devido à violência oculta que já se encontra institucionalizada.
Percebemos que o assunto (dos excessos de cesarianas no Brasil) tem crescido na mídia. Os jornais, TVs e revistas, de uma forma geral tem dado espaço para especialistas mais humanizados e têm apresentado com maior frequência esses dados alarmantes sobre as cesarianas no Brasil. Você acha que pode estar começando uma mudança efetiva de mentalidade da população?
Sem dúvidas! O crescente interesse da grande mídia no assunto e o espaço que tem sido dado para os profissionais realmente humanizados demonstra uma enorme demanda reprimida da própria sociedade a respeito de mais informações de qualidade e de uma urgente mudança de paradigmas no atendimento obstétrico brasileiro.
O tema parto é sempre tratado de forma muito passional. Como falar sobre esse assunto sem que as mulheres se sintam culpadas ou acusadas e sim compreendam que é preciso mudar a realidade obstétrica no Brasil?
As mulheres precisam entender que, acima de qualquer escolha, está uma questão de saúde pública. O alto índice de cesarianas desnecessárias está colocando mulheres e bebês em riscos igualmente desnecessários, e os privando de benefícios importantes que irão repercutir em curto, médio e longo prazo. E, sobretudo, precisam entender que nossa luta é contra o sistema, que apenas oferece uma ilusão de que as mulheres podem escolher alguma coisa quando se trata de parto. Pois uma escolha sem informações de qualidade a respeito do assunto não pode ser uma escolha consciente. Eu particularmente defendo a escolha da mulher a respeito da via de parto (coisa que não acontece em muitos países desenvolvidos, onde nenhuma mulher pode escolher se submeter a uma cirurgia de grande porte sem indicação clínica), mas acredito que essa escolha precisa ser devidamente esclarecida, oferecendo à mulher todos os dados referentes às duas opções. Se isso fosse feito, tenho certeza de que pouquíssimas mulheres escolheriam uma cesariana.
Os custos foram todos bancados por vocês, autores do filme. Como tem sido essa busca pela arrecadação de recursos para o lançamento? Nenhuma empresa teve interesse em patrocinar, mesmo contando com a possibilidade de recursos da Lei Rouanet?
Nós fizemos o caminho inverso de todas as produções. Normalmente, consegue-se o recurso e depois a produção é iniciada. Nós tínhamos pressa, éramos iniciantes nesse universo do cinema e começamos a percorrer todas as etapas de forma independente, para não ter que passar pelas burocracias envolvidas em recursos públicos e nem ter o corte de conteúdo do filme submetido a interesses de terceiros. Sempre acreditamos que o recurso ia sair em algum momento, até que o filme ficou pronto, e os recursos não poderiam ser retroativos. Fomos bancando as contas que apareciam e quando nos demos conta já estávamos na etapa de lançamento, quando resolvemos iniciar a campanha de crowdfunding, que acabou superando todas as nossas expectativas.
E falando sobre perspectivas: quando poderemos recomendar o Renascimento do Parto para as amigas grávidas?
Agora que conseguimos os recursos para a distribuição, acreditamos que o lançamento nos cinemas ocorra nos próximos meses e que logo depois seja disponibilizado para compra em DVD. Futuramente, o filme será exibido também em televisão aberta e fechada.







