
Milly com o sobrinho Paulo
Milly Lacombe é jornalista esportiva, colunista da Coluna do Meio da revista TPM, uma das mulheres que mais entendem de futebol no Brasil e falou com o Mamatraca apaixonadamente sobre esse esporte que é paixão nacional.
O futebol é considerado o esporte nacional. O que faz com que tanta gente ame seu time? Por que tanta paixão?
Normalmente, a gente se apaixona por um time ainda na infância. O futebol representa, assim, o primeiro grande amor de muitos meninos e meninas. É o primeiro entendimento de que existe uma força maior a nos guiar. Claro que a família já estava ali, mas você, de verdade, não se apaixona por seus pais e irmãos. Existe amor, mas não com a intensidade avassaladora que o futebol promove. Com o jogo fica estabelecida uma união que terá altos e baixos, mas não verá traição. É o amor ideal, e a melhor metáfora da vida: juntos, veremos dias gloriosos e dias de profunda dor, mas jamais nos separaremos. A gente entende isso muito cedo.
Cada vez mais a gente ouve sobre brigas, mortes, violência - antes, durante e depois dos jogos. Ir ao estádio ainda é um programa familiar?
O futebol jogado no Brasil hoje é um jogo feio, truncado, amedrontado e defensivo. Não existe no campo o espetáculo que um dia aprendemos a ver. Com isso, as atenções se voltam para fora e está aberta uma perigosa vala para a violência fora do campo. E é preciso levar em conta também que alguns dirigentes e jogadores colaboram para que a rivalidade vire inimizade. Antigamente, os jogadores rivais faziam apostas antes de clássicos. Lembro que Serginho Chulapa uma vez apostou que se seu time perdesse o clássico ele deixaria que um jogador rival cortasse seu cabelo em campo. Esse tipo de coisa dava a certeza que o jogo era sério até acabar, e que depois poderíamos relaxar um pouco - ainda que perder um clássico seja sempre uma dor agúda. Outro aspecto importante é entender que essas brigas de torcida que acontecem fora do estádio são um problema social, e tem pouco a ver com o futebol. E por fim, um dos mais sérios, é o seguinte: se você trata o torcedor como um bicho, ele se comporta como um bicho. E, no Brasil, o torcedor é há muito tempo tratado como um bicho.
Por muitos anos o Brasil teve a melhor jogadora de futebol feminino do mundo, a Marta, mas o esporte nunca vingou entre as mulheres. Por quê?
Por preconceito. Puro preconceito. O machismo determina que mulher não joga bola, ou que, se joga, é abrutalhada, sapatão etc etc etc. E, obviamente, a orientação sexual de uma mulher, ou de um homem, não tem asbolutamente nada a ver com a capacidade dele ou dela desenvolver qualquer atividade profissional.
E aquela máxima que “mulher não entende de futebol”, ainda existe esse preconceito?
Existe sim, mas já está menor. Acho que o papel da Soninha foi determinante: era uma mulher doce que falava de futebol com a mesma propriedade de um homem. Ela rompeu uma barreira importante.
As escolinhas de futebol são o sonho de consumo de 99% dos meninos brasileiros. O sonho de ser jogador de futebol ainda permeia a cabeça dos brasileirinhos de todas as classes sociais?
Acho que sim. Jogar bola é sensacional, das coisas mais encantadoras que podemos fazer na vida. Prolongar essa sensação é o sonho de quem gosta do jogo. A pressão é uma das razões pelas quais muitos bons jovens jogadores não vingam. Se pressão já é uma coisa difícil para nós, adultos, imagine para um menino que muitas vezes está apenas preenchendo o sonho do pai... acho que os pais tem papel fundamental nessa questão sim; é a família mais do que o clube.
Que conselho você daria a mães cujos filhos sonham ser jogador de futebol?
Diria para lerem o livro que Rai, Soninha e eu escrevemos ;-)) Para Ser Jogador de Futebol. Tem tudo ali. Mas, resumidamente, para não matar logo na saída o sonho do moleque ou da menina. Nada mais dolorido do que um sonho que não pode sequer ser sonhado.