
As histórias infantis são repletas de órfãos, madrastas más, vinganças e tragédias e são sucesso entre as crianças há gerações. Não deveria ser ao contrário? Não deveríamos nos afastar das histórias tristes?
As historias infantis são um modo de compartilhar experiência, uma estratégia simbólica de de transmissão de saberes. Elas abordam de um modo fantástico os medos de todo humano. As crianças tem medo de perder seus pais, ao invés de falar isto diretamente, a história coloca como uma criança órfã consegue superar dificuldades. Vamos pensar por que é tão forte a presença das madrastas más? Porque é mais suportável a idéia de uma madrasta má do que de uma mãe má. Para uma criança pode ser muito assustado depender tanto de alguém e estar submetido às exigências do outro. Nas histórias da bruxa má ou das madrastas o que está em questão é a submissão da criança à função materna. Toda mãe tem seu lado bruxa. No entanto, para aliviar a carga psíquica, nas histórias infantis existe a possibilidade de superação. Esta estrutura que se repete nas historias infantis, onde o mau sempre perde, acaba tranqüilizando a criança em relação às maldades alheias e a suas próprias maldades. É por isto que as crianças vêem muitas vezes os mesmos filmes ou pedem para que a história seja recontada. Trata-se de uma garantia de controle. Sao ações simbólicas tentando dar conta do inesperado humano.
Qual é a importância dos contos e lendas para o desenvolvimento emocional das crianças?
É de suma importância a oferta de histórias infantis, porque a criança vive aquele momento em uma situação de “como se”, ou seja, como se fosse determinado personagem, como se vivesse aquela situação. Então, na experiência ilusória do “como se”, a criança experimenta outras posições. Por mais assustadora que seja uma história infantil, trata-se de uma área protegida de experimentação. Esta proteção proporciona um espaço transicional interessante ao desenvolvimento infantil.
Um conto infantil pode ajudar a superar medos e dificuldades? E pode gerar ansiedades e fobias?
Nao é o conto em si que auxilia a superar medos e sim a narrativa compartilhada de uma experiência. A criança se coloca em uma posição ilusória de vivência. Com o conto infantil, a criança escuta sobre o desenrolar de uma situação em geral ansiogênica ou angustiante. Isto abre espaço para que ela possa elaborar sobre amores, medos, fantasias. É claro que as crianças podem se mostrar ansiosas depois de um filme ou de uma história, mas é preciso entender que o objeto da cultura em questão só é o caminho para que a ansiedade da criança se faça perceber.
Os contos e as lendas são poderosos transmissores da cultura de determinado país, região e época. É justo afirmar que os contos e lendas nacionais são "mais interessantes" para serem apresentados às crianças do que os contos importados de outras culturas?
Penso que devemos priorizar boas historias sejam elas nacionais ou estrangeiras. O que ocorre é que como a mídia de massa prioriza historias estrangeiras, é interessante estarmos atentos para incluir no dia a dia das crianças as lendas e contos locais. Isto possibilita uma ampliação do capital cultural.
O que você acha dessa corrente politicamente correta que vai abrandando as histórias e as músicas para que tudo seja apresentado para a criança de uma maneira asséptica e sem coisas feias ou erradas?
Particularmente não me agrada a idéia. Se retirarmos a possibilidade de lidarmos com as fantasias do humano dos produtos culturais, dificultamos a abertura de espaço para a elaboração. Estes produtos foram criados para dar espaço à fantasia. É melhor cantar de atirar o pau no gato do que precisar atirar o pau no gato. Trata-se de uma sublimação necessária. Não é porque uma criança brinca de polícia e ladrão, que ela ocupará esta posição na adultez. Isto também serve para os jogos eletrônicos tão costumeiramente acusados de incitadores de violência. Não é o game em si que causa violência e sim a ausência de um interlocutor capaz de problematizar o que ali ocorre.