
Quando começar a falar de dinheiro com as crianças e como saber de que forma abordar o assunto de acordo com cada idade?
Educação financeira tem a ver com disciplina, com organização pessoal, com qualidade das suas escolhas. Uma criança que tem hora certa para se alimentar, para tomar banho, para dormir, provavelmente será uma criança mais pendente à disciplina. Estes são aspectos não lógicos, não racionais das finanças, mas são importantes. Uma criança disciplinada certamente terá mais vantagem em relação às finanças do que uma criança indisciplinada. Nem estou falando sobre a comparação entre uma criança de perfil mais lógico e outra intuitiva, ou uma racional e uma mais emocional – estamos falando sobre uma tendência de uma pessoa se sentir bem em um ambiente organizado. E isso começa lá atrás.
A partir do momento em que a criança já tem a percepção do mundo, daquilo que está acontecendo ao seu redor, com um ano e meio, dois anos de idade, ela já começa a ter curiosidade em relação ao dinheiro. Essa criança não vai fazer contas em breve, mas ela percebe que existe uma relação entre os adultos e o dinheiro. Esse é o momento de começar a envolvê-la de maneira lúdica e divertida.
Dinheiro pode e deve ser manipulado pela criança. Ela pode entregar o cartão de débito na padaria ou entregar o dinheiro e esperar pelo troco e pelo comprovante. Você vai criando uma cultura de naturalidade do dinheiro. Um dos elementos mais perigosos no comportamento financeiro é quando a pessoa desenvolve uma paixão pelo dinheiro. “Não pode, não pode, não pode, não tem, não tem, não tem” – para uma criança, isso significa querer gastar dinheiro compulsivamente quando chegar à vida adulta e tiver dinheiro para gastar. O envolvimento natural é muito mais importante do que ensinar a criança a fazer contas, a manipular o dinheiro, a planilhar.
Educação financeira para crianças tem que ser envolvente, divertida, todos os dias, com uma atenção muito grande dos adultos – não como uma aulinha de finanças, mas no sentido de não perder a oportunidade de mostrar que a relação com o dinheiro é uma conquista, por exemplo. Mostrar que sacrifícios conduzem a recompensas. Dinheiro faz parte da vida, mas não devemos desenvolver uma paixão por ele. Tudo isso é educação financeira.
Hoje as crianças são bombardeadas com estímulo ao consumo. Como incentivar o uso responsável do dinheiro?
Na verdade o consumismo da criança é um reflexo do comportamento adulto.
Normalmente crianças que têm um comportamento compulsivo são filhas de adultos que têm um comportamento compulsivo ou muito desleixado em relação ao dinheiro.
Com relação ao marketing, que estimula muito o desejo de consumo das crianças, este é um dos motivos que fazem com que eu defenda a ideia de que antes da educação financeira deveria vir o estudo da filosofia, que nos ajuda a questionar se o que dizem que é importante para a gente realmente é, se aquela propaganda na televisão está ou não está manipulando nosso comportamento, se nós realmente precisamos ou queremos alguma coisa.
Sempre antes de uma atitude de consumo deve haver um planejamento prévio, mesmo que seja para a realização de um sonho. Não devemos dizer para a criança que ela não pode ter determinado brinquedo. Quando ela quer muito alguma coisa, desde que seja adequada para a idade, a melhor atitude que um pai ou uma mãe podem ter é falar “você quer mesmo? Então vamos ver quando dá pra você comprar, o que você vai ter que deixar de comprar para poder ter aquele brinquedo”. É importante ensinar a criança a querer conquistar alguma coisa. Muita gente acha que planejamento financeiro é privação, e não é isso. Educação financeira é você se organizar, se planejar para realizar seus sonhos na vida.
Não adianta ensinar a criança a nunca ceder às tentações de consumo, mas sim ensiná-la a entender as diferentes tentações e dar maior importância à que seja mais importante para ela e perseguir essa uma com disciplina pelo tempo que
for necessário. Dar valor àquilo que se conquista com alguma poupança, com alguma privação. Esse processo tem que ser visto como positivo, e não como um castigo na vida da criança. Senão ela vai desenvolver uma aversão a qualquer tipo de planejamento.
Você consegue então aplicar na prática todos esses conceitos de educação financeira para crianças...
Meu filho mais velho, desde os dois anos e meio de idade faz questão de entregar o cartão de crédito ou débito na padaria, gosta de exigir o comprovante fiscal – é quase que uma brincadeira de se sentir adulto, mas que já tem relação com a educação financeira e com a responsabilidade social. Falar de dinheiro com ele é uma coisa natural.
Ou seja, vivemos em um mundo capitalista e não adianta ignorar o dinheiro...
Muito pelo contrário, o dinheiro faz parte de todas as nossas escolhas. O ideal é que a criança entenda o dinheiro como um elemento fluido na nossa vida, que ele faz parte e está relacionado à grande parte das nossas decisões, mas que ele não é o grande centro das nossas escolhas. É muito mais importante meu filho buscar um grande sonho e usar tanto dinheiro quanto criatividade para alcançá- lo, do que fazer da sua vida uma grande preocupação com contas e dinheiro e transformar isso numa grande – e péssima – obsessão.
Cofrinho e mesada são soluções importantes para a educação financeira? Como não banalizar essas iniciativas?
São importantes desde que desenvolvidas dentro de um contexto de educação financeira. Simplesmente dar um cofrinho como um brinquedo ou um espaço para guardar moedas é pouco produtivo – na verdade é um desrespeito ao dinheiro, porque quando você guarda dinheiro sem pensar em uma utilidade dele para o futuro, você está tirando moedas de circulação, que é um custo para economia.
O cofrinho tem que servir para desenvolver um estímulo, uma poupança para alguma realização. A criança pode até receber um estímulo do papai e da mamãe como recompensa daquele sacrifício, dobrando o valor poupado. Isso aconteceu com meus filhos em uma viagem. Eles quebraram o cofrinho (eu gosto da cerimônia de quebrar mesmo o cofrinho) e encontramos R$ 120 em moeda. Eu sempre proponho dobrar o valor do que tinha no cofre, então cada um ficou com R$ 120 para gastar na viagem como quisesse. Curiosamente, meu filho mais velho, de cinco anos, gastou tudo no terceiro dia de viagem, comprou todos os brinquedos que queria. A mais nova, de três, disse “meu irmão já comprou muitos brinquedos, vou brincar com os dele” e guardou o dinheiro dela. Conclusão: o dinheiro dela voltou para o cofrinho e ela sabe que vai sacar em dobro na próxima viagem. Mesmo saber quanto vale esse dinheiro, ela sabe que está aumentando o poder de compra.
Com relação à mesada, a ressalva que eu faço é que ela não é um direito das crianças, não é um presente, não é autonomia da criança. Isso é uma forma ruim de educar. A mesada será bem trabalhada quando for entendida como o direito que se dá à criança de administrar uma pequena parte do orçamento da família. Quem ganhou esse dinheiro foi a família, o pai, a mãe. Essa parte refere-se ao consumo que a criança vai fazer sem os pais estarem presentes, como comprar o lanche na cantina da escola ou gastar em um passeio com os amigos no shopping no final de semana. O importante é que se sugira um valor a partir do comportamento que se espera da criança – quanto você vai gastar na cantina? Precisa comer lá todos os dias? Se na cantina se gasta R$ 4 por dia, podemos sugerir que a criança receba os R$ 20 por semana, mas que poupe R$ 4 e, em um dos dias, leve lanche de casa. O esforço que a família faz para que essa criança faça uma poupança para gastar com alguma coisa que ela goste, como figurinhas por exemplo, é forma de flexibilizar a mesada. É importante acompanhar como a criança está gastando a mesada, conversar com o filho sobre isso de forma natural, sugerindo ajuda se for necessário na administração do dinheiro, mas sem cobranças.
Tem uma fórmula adequada para se calcular valor de mesada?
Há autores que sugerem um valor de R$ 1 por semana por cada ano de idade da criança – se a criança tem 10 anos, ganha R$ 10 por semana, por exemplo. Mas eu não gosto muito disso porque padroniza as pessoas. Cada família tem um padrão de vida e de consumo diferente da outra. Deve haver bom senso e uma combinação clara entre pais e filhos sobre porque tal valor. A mesada vai envolver a compra de roupas no shopping, por exemplo? Por que o filho acha que tem que escolher a sua roupa? Os pais é que devem definir o que cabe e o que não cabe no padrão de vida da sua família. É importante ter uma atitude construtiva – a criança ainda não tem maturidade para tomar decisões sobre as escolhas que atendem ao seu padrão de vida e de consumo.
As escolas já estão começando a tratar de educação financeira ou isso hoje ainda é responsabilidade exclusiva dos pais?
Estamos em um momento muito interessante da educação financeira no Brasil, com muito debate aberto na sociedade sobre o assunto. As escolas têm se movimentado já há uns quatro ou cinco anos. É bem comum encontrar entre as escolas privadas ainda não a disciplina educação financeira, mas uma preocupação multidisciplinar com o assunto, um debate entre a matemática, a filosofia, a ecologia, a racionalização do uso de recursos, o uso inteligente do dinheiro, a brincadeira da feirinha.... Tudo isso vem sendo trabalhado em escolas.
A partir de 2013, segundo a Estratégia Nacional de Educação Financeira (ENEF), do governo federal, 100% das escolas públicas terão educação financeira como disciplina recomendada (ainda não obrigatória). As escolas terão suporte de apostilas preparadas pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC), com todo um programa didático desenvolvido e aprovado pelo governo para as escolas públicas.
Você costuma fazer aquele cálculo de quanto custa um filho ao longo da vida?
Eu abomino esse cálculo. Para mim não faz o menor sentido, porque esse cálculo parte do pressuposto que os pais não sabem lidar com o dinheiro ou não têm qualidade de consumo. Criança não é custo. Se você colocar na ponta do lápis, minha esposa custa mais do que meu filho, então é melhor eu não ter uma esposa?
Existe o conceito de qualidade de consumo. Obter bem estar, prazer do dinheiro que você usa. A maioria das famílias brasileiras não consegue isso porque exagera nas grandes escolhas: compra uma casa mais cara do que poderia pagar, compra um carro ou uma TV mais caros do que deveria... Enche o orçamento de prestações e aí não sobra dinheiro para o bem-estar, para a qualidade de vida, para o lazer. Quando se tem um filho, atividades como jantar fora, viajar e sair de férias passam a não ser importantes no primeiro ano do nascimento do filho. O bem-estar que antes acontecia fora passa a se dar dentro de casa junto do bebê. Os gastos que são direcionados a um chá de bebê, à compra de um berço, de fraldas ou do carrinho, não são, na verdade, adicionais, eles acabam substituindo outros gastos que se deixa de ter com a nova vida. Além disso, a mulher e o homem que têm filhos têm uma tendência de aumentar a produtividade no trabalho e, com isso, aumenta a capacidade de renda do casal. Ou seja, essa conta do custo do filho não faz sentido. O importante é que as famílias ajustem suas despesas para ter uma maior qualidade de consumo e de vida.