Logar com:


Cadastre-se Recuperar Senha

Mamatraca

Palmada

Sexta Feira, 22 Mar. 2013

"INFELIZMENTE, APENAS AS CRIANÇAS AINDA APANHAM COM O CONSENTIMENTO SOCIAL. NÃO É ESTRANHO ISSO?"

O psicólogo João David Mendonça atua na área de terapia de família, é professor e supervisor clínico do Instituto Sistêmico em Florianópolis/SC. Também - e não menos importante - é pai do Felipe, de 4 anos, e do Henrique, que nasce em julho! Escreve sobre psicologia, terapia e coisas da vida no blog Psicojd.

 

Nessa entrevista ele nos ajuda, com muita lucidez, a entender sobre algumas questões ligadas à violência doméstica, principalmente a que atinge as crianças. 

 

Frase de João David Mendonça usada em um meme da fanpage do movimento Bater em Criança é Covardia (www.facebook.com/SemPalmadas)

 

 

 

 

Sabemos que alguns dos pais que dão palmadas em seus filhos nunca questionaram o porquê desse comportamento. Porém alguns deles, quando se deparam com informações e campanhas contra a violência doméstica, assumem uma posição agressiva, direcionando comentários raivosos à problemática. Por que isso acontece?

 

Talvez porque seja um tema que os remete às suas próprias experiências emocionais da infância. Muitos dos que são pais hoje apanharam quando crianças. Para muitos desses pais, pensar na possibilidade de educar os filhos de maneira diferente (e até melhor) pode soar como um desrespeito ou como uma deslealdade aos próprios pais.

 

Entre as pessoas que batem nos filhos há um discurso muito comum: agradecem pelas palmadas que levaram de seus pais, e colocam nelas a responsabilidade por serem pessoas de bem.

 

Na terapia de família trabalhamos com um conceito de “lealdades invisíveis”, desenvolvido pelo psiquiatra húngaro Ivan Borzomenyi Nagy. Tais lealdades são vistas como forças secundárias que regulam nossos comportamentos e nossos pensamentos, como se fossem compromissos invisíveis internalizados a partir da fantasia de que agir ou pensar diferente poderia colocar em risco a manutenção da relação ou da imagem de seus pais ou cuidadores. Assim, é tão importante, para muitas destas pessoas, que as palmadas sejam consideradas como “boas lembranças” e até mesmo repetidas em seus próprios filhos. Propor um caminho de educação que saia desta padrão pode ser uma ameaça, e por isso tal idéia é muitas vezes rechaçada com forte reatividade.

 

 

É comum ainda ouvir argumentos como "Eu apanhei quando era criança e não me tornei uma pessoa violenta". Que outros tipos de desculpas os agressores utilizam para justificar surras?

 

Acho que são mais que “desculpas”, são crenças fortemente enraizadas que sustentam o danoso hábito da punição física. Dentre estas crenças, dou alguns exemplos:

. Bato para o seu próprio bem, porque amo meu filho e quero o melhor para ele;

. Bato para mostrar a minha autoridade;

. Bato porque a palmada é um meio de impor limites na criança;

. Bato porque uma criança precisa ser castigada e corrigida de seu erro para não sofrer mais tarde;

. Bato para disciplinar a criança e ensiná-la sobre o que é certo e o que é errado.

. Bato para ser obedecido.

. Bato porque a criança não tem capacidade para entender uma conversa.

 

O desafio de nossa geração é compreender que todos estes objetivos citados poderiam ser alcançados por outros caminhos que não o da violência física. É interessante constatar que nossa sociedade já conseguiu proibir os escravos de apanhar, já criou leis rigorosas para defender as mulheres, já não bate mais nos seus "loucos", já criou instituições de defesas dos índios, já considera crime a tortura de prisioneiros, já luta contra o mau trato aos animais. Infelizmente, apenas as crianças ainda apanham com o consentimento social. Não é estranho isso?

 

 

 

A criança que apanha (mesmo que de leve) apresenta comportamento diferente daquela que nunca levou um tapa sequer?

 

Vale lembrar que não existe criança perfeita, que obedece o tempo todo, que não chora nem faz birras, que não tem suas próprias opiniões, que não buscam testar os seus pais. Ou seja, criança é criança e ponto final.

 

Porém, uma criança que apanha tende a ser mais agressiva no trato com seus iguais, pode desenvolver o hábito de morder os outros, apela mais facilmente para brigas como meio de conseguir o que quer, utiliza tapas nas suas relações com outras crianças, tende a reproduzir atitudes de agressão batendo nos irmãos.

 

Tais comportamentos podem aparecer em maior ou menor grau, dependendo de outros fatores como a frequencia com que a criança apanha, seu temperamento e personalidade, se há outras pessoas que servem como referências positivas, etc.

 

Além destes comportamentos, podemos pensar em muitas outras consequências que podem se manifestar, como baixa auto-estima, vergonha, raiva, sensação de impotência, sentimento de rejeição, medo, confusão, etc.

 

É um equívoco muito comum acreditar que criança que não apanha vai apresentar problemas mais tarde. É exatamente o contrário: crianças que costumam ser “corrigidas” ou “ensinadas” à base de força bruta estão mais vulneráveis a adotar comportamentos transgressores e agressivos do que outras que são criadas num cultura de não agressividade.

 

 

 

Você diz que "a palmada, ao contrário de afirmação de autoridade, é consequência da sua ausência." Qual a melhor maneira de demonstrar autoridade sem ameaçar a integridade da criança?

 

Diferentemente de como alguns comumente pensam, a autoridade parental não está presente num ato isolado, como a palmada por exemplo. A autoridade genuína encontra-se no modo como a relação pais/filhos está baseada. Alguns pais acreditam que bater é uma maneira de demonstrar autoridade. Eu tenho insistido que não, que bater é, ao contrário, o sinal de que o pai não sabe mais o que fazer, perdeu a capacidade de raciocinar e de estabelecer-se como autoridade na vida de uma criança.

 

É claro que toda criança vai confrontar seus pais, vai desobedecer, vai fazer birras. A diferença está na maneira como os pais vão responder a este confronto. Se respondem com tapas ou palmadas, perdem a oportunidade de mostrar quem é o adulto da situação, e quem é ali a autoridade para enfrentar a adversidade.

 

Creio que algumas maneiras mais autênticas pelas quais os pais podem mostrar sua autoridade são:

. Autoridade pela presença. Estar presente e interessado na vida do filho é um modelo de autoridade;

. Autoridade pelo exemplo. Se o pai responde com um ato violento, o exemplo que ele dá é o da violência, mesmo que ele diga que “dói mais nele que no filho”. Crianças seguem modelos, não discursos;

. Autoridade pela firmeza. Quando um pai fala ou repreende com assertividade, passa segurança ao filho;

. Autoridade pela relação de afeto. A criança sente-se muito mais envolvida com o adulto quando ela sente-se respeitada por ele na sua identidade, o que possibilita a ampliação do afeto mútuo.

 

Tais manifestações de autoridade não agridem nem ameaçam a criança, e contribuem para fortalecer seu nível de confiança em seus cuidadores.

 

 

 

"Eu bati no meu filho, mas me arrependi e não quero fazer de novo." Como trabalhar essa questão com os pais e com os filhos?

 

Acho ótimo terminar a entrevista com esta visão positiva, que há muitos pais que desejam um novo tipo de relacionamento com seus filhos. Neste caso considero importante, em primeiro lugar, trabalhar com a idéia do reconhecimento de nossas imperfeições. A paternidade / maternidade é um aprendizado constante. Quando estamos aqui falando a respeito dos riscos de uma educação baseada em palmadas, não queremos que os pais se sintam incompetentes, culpados ou confusos. Não há uma pílula mágica capaz transformar todos nós em pais perfeitos, infalíveis e sem máculas. Temos então que nos permitir errar, pois nem sempre estamos prontos para acertar.

 

Porém, creio que um segundo passo é importante neste processo: dar-nos conta de que possuímos uma incrível capacidade para mudar e nos transformar. Sem dúvidas, o caminho da educação sem tapas e palmadas é bem mais difícil. Exige dos pais muito mais tempo, paciência, sabedoria, auto-controle, e especialmente o exercício de seus próprios limites para não “perder as estribeiras”. Afinal, como um pai pode ensinar limites a um filho, se ele mesmo não consegue controlar os seus próprios limites em um momento de contrariedade?

 

A educação pela paz é muito mais que uma regra de conduta; é uma postura. Se é uma postura, quando nos conduzimos de maneira equivocada, podemos percebê-la e imediatamente retomar o rumo. Se num lampejo de imperfeição, comum a todos nós pais, e dominados pela irritação ou fúria, apelamos no passado para algum tipo de punição física, é possível restabelecer a consciência de que este não é o modo preferível de nos relacionarmos com nossos filhos.

 

Aos que percebem o erro, resta-lhes o desafio de levantar a cabeça e continuar lutando para manter a postura de não violência, especialmente porque o que eles mais desejam é o bem de seus filhos.

 
Esporte

Quinta Feira, 29 Nov. 2012

"O ESPORTE SÓ É BENÉFICO SE A CRIANÇA ESTÁ FELIZ"

Hoje trazemos uma entrevista especial com a Simone Pinheiro Cotrim Rebouças, professora do CAD (Centro de Aprendizado Esportivo) do Esporte Clube Pinheiros, que tem um trabalho de introduzir, de forma lúdica, o esporte para crianças. Formada em educação física com pós-graduação em iniciação esportiva na infância e adolescência, Simone é uma das professoras mais queridas pela criançada do Pinheiros. Quem a vê trabalhando descobre imediatamente o motivo: ela tem uma paixão imensa pelo que faz.

 

A partir de que idade a competição é saudável para crianças? Que tipo de consequências negativas na formação da criança uma iniciação precoce à competição pode causar?


Em primeiro lugar nosso dever é fazer com a criança saiba o valor que tem o brincar, e é o que não está acontecendo mais hoje em dia. A competição será introduzida através das brincadeiras e dos jogos, pois assim ela criará maturidade para saber lidar com as vitórias e frustrações. Nas nossas aulas temos crianças que não sabem lidar com a derrota. Em todas as atividades, temos que lembrá-las que essas são as regras que foram estabelecidas e devemos respeitá-las e que o perder faz parte da regra. Pois, se evidenciarmos esse negativismo da derrota que a criança tem, ela será uma criança muito frustrada sempre que perder algo ou não der certo algo que tenha planejado.
Se olharmos o lado competitivo onde há esportes em que se começa cedo, sabemos que ela perderá um pouco da ludicidade do brincar, dos momentos de lazer, afinal torna-se uma obrigação a cumprir. Mas será positivo enquanto a criança tiver prazer do que ela está fazendo. Caso contrário, ela carregará um lado frustrante do esporte.

 

De que forma essa competição pode ser saudável?

A competição pode ser aplicada a partir dos 5 anos de idade por meio dos jogos e brincadeiras, quando a criança começa entender e assimilar com mais facilidade as regras e a própria competição. O mundo é competitivo e devemos saber lidar com regras, vitórias e derrotas sempre.

 

Mas hoje vimos muitos exageros de pais colocarem crianças para fazer várias atividades esportivas ao mesmo tempo. Existe um limite?

Eu acredito que o limite vai até onde a criança está feliz praticando esporte, desde que seja de forma lúdica e estando de acordo com a faixa etária. Tive alunos que faziam cinco atividades diferentes. Se é errado depende de cada criança, mas devemos ficar atentos ao cansaço físico e mental dessa criança. Se ela está fazendo de forma lúdica, em tese não há restrições. Outro cuidado que se deve ter é de sempre reservar um tempo livre para brincar, para “fazer nada". A criança precisa ter esse momento.

 

Como o esporte pode ajudar na sociabilização das crianças?

Pode ajudar e muito principalmente quando a criança demonstra essa dificuldade. O mundo lá fora necessita que nos relacionemos, precisamos um do outro, não somos autosuficientes. Quando brincamos, fazemos esse link com a criança, oferecemos artifícios nas atividades para que ela precise se relacionar com o outro de forma bem agradável, de forma que ela não se sinta pressionada. Às vezes fico chateada quando os pais desistem de trazê-los por eles resistirem no inicio, porque sabemos o quanto será benéfico no decorrer do seu desenvolvimento.

 

Que tipo de lições o esporte pode ensinar às crianças que elas tendem a levar para o resto da vida adulta?

Uma das coisas que colocamos no topo é o respeito com o próximo dentro das atividades e jogos. Isso é primordial e certamente ela levará para o resto da vida. Tentamos fazer com que o esporte seja algo prazeroso em sua vida, mesmo que este individuo não vire um atleta. Trabalhar em equipe é outro ponto, porque a criança irá precisar do outro indivíduo para que seu time seja melhor e vai aprender que ela não é autosuficiente.

 

É comum que os pais busquem nos filhos compensação por vitórias e títulos esportivos não conquistados no passado?

É mais comum do que se imagina, mas como já disse, só será de grande valia até o momento que está sendo prazeroso para a criança. Se ocorrer o inverso, estará se criando uma criança frustrada e que não irá querer praticar esporte algum.

 

E como deve se dar a escolha da modalidade esportiva de acordo com a idade?


Antes de escolher qualquer modalidade, deve-se dar um rico repertório motor, para que esta criança quando partir rumo a algum esporte tenha condições suficientes e facilidade ao praticar qualquer atividade. Não sou a favor de colocar ninguém no competitivo antes dos 9 anos, pois muitas vezes acontece a desistência por imaturidade. Volto a dizer: o esporte só está sendo benéfico se a criança está feliz. E, no decorrer dos anos, nós profissionais acabamos identificando o que esta criança tem facilidade.

Nerd

Quarta Feira, 31 Out. 2012

MAD SCIENCE: CONHECIMENTO E DIVERSÃO

 
 
Para começar, uma pergunta cheia de curiosidade: como funciona a Mad Science?
 
Bom, gosto de mencionar uma frase de Walter Isaacson que muito nos inspira: “A vantagem competitiva de uma sociedade não virá apenas da eficiência com que se ensina multiplicação e tabela periódica, mas também do modo como se estimula a imaginação e a criatividade”. Nós acreditamos que o aprendizado vai além de dar as respostas certas, uma vez que buscamos sempre incentivar a curiosidade e fazer com que, principalmente as crianças, consigam chegar as suas próprias respostas por meio do método científico, ou seja, da formação de hipóteses e depois testá-las em experimentos podendo confirmar ou refutar aquela hipótese. 
 
 
O ditado diz que de cientista e louco todo mundo tem um pouco. Só que na Mad Science tem muito! Quem são os nerds, quer dizer, cientistas do grupo?
 
Verdade, somos todos malucos, mas pelo Mundo da Ciência Divertida. Aqui na Mad Science, nossos cientistas têm de ter, acima de tudo, vontade e disponibilidade para estar sempre estudando e também a curiosidade pelo porquê das coisas é fundamental, já que são os questionamentos que ajudam a chegar ao conhecimento. Temos cientistas de diferentes formações, como professores, biólogos e atores. Todos eles passam por treinamentos científicos da Mad Science, que abordam conceitos, teoria e prática. Além disso, todos os cientistas são apaixonados por ensinar.
 
 
Meus filhos adoram experimentos, mas eu não prestei atenção às aulas de química e física no colégio e não sei nada de ciências! Como posso fazer para ajudar a despertar esse interesse neles e não dar bola fora?
 
Com certeza, você não só pode despertar o interesse dos seus filhos pela ciência, como é fundamental para este processo. Não é preciso ser especialista para ajudá-los, comece incentivando as perguntas e não fique envergonhada caso não saiba respondê-las. O mais importante é mostrar para eles que se não temos uma resposta para a pergunta, então, está na hora de buscá-la. Quando isso acontecer, faça pesquisas na internet e nos livros junto com as crianças e discuta com elas sobre os resultados, dando sempre espaço para que elas tenham uma opinião sobre as informações pesquisadas e para não dar bola fora lembre-se sempre de buscar fontes de pesquisa confiáveis. Você pode, inclusive, levá-los em nossas apresentações gratuitas na Biblioteca Mário Schenberg em São Paulo, que acontecem duas vezes por mês, para ter uma experiência diferente sobre o ensino de ciências. Além disso também temos sempre informações atualizadas sobre as curiosidades do Mundo da Ciência Divertida em nossos canais nas redes sociais. 
 
 
O que é preciso para ser um cientista de verdade?
 
Para ser um cientista é preciso ter acima de tudo dedicação para estudar sempre, afinal, esta trajetória de estudo não tem fim. Você pode, inclusive, iniciar ainda na graduação por meio da iniciação científica. Uma postura muito importante para ser cientista é não ter medo de errar. A partir de erros surgiram grandes invenções, como a penicilina e até mesmo o picolé.
 
 
Ouvi dizer que a cozinha de casa é o laboratório mais interessante que se tem acesso sem uma credencial especial. Isso procede?
 
É, de fato, um ambiente adequado para fazer experiências, já que as sujeiras são mais fáceis de serem removidas e você tem água disponível. Na cozinha você encontra uma infinidade de ingredientes para fazer os mais variados experimentos científicos, como por exemplo, você consegue demonstrar uma reação de Ácido Base, usando bicarbonato de sódio e vinagre (presentes na cozinha) e a partir dai fazer muitas experiências, mas nós gostamos de ressaltar que é sempre muito importante prezar pela segurança, por isso, incentivamos que as crianças façam as experiências sempre com a supervisão de um adulto.
 
 
Eu queria começar a fazer experimentos com as crianças, mas não tenho ideia por onde começar. Alguma dica? 
 
Bom, primeiro é sempre interessante pesquisar a partir do conceito que você quer aprender e ensinar para seus filhos. A Mad Science tem uma parceria com a TV UOL, em que desenvolve vídeos que ensinam, passo a passo, como fazer experiências divertidas.
Vamos a um exemplo: Neste vídeo você aprende a fazer minifoguetes e ainda verifica como funcionam as bases de experimentação científica.
 
Esta atividade ilustra o poder de um gás. O comprimido efervescente é colocado, e selado com água dentro da caixinha de filme, o gás carbônico produzido torna-se comprimido dentro do container. Quando a pressão atinge um ponto crítico, os lançamentos da caixinha para o ar são feitos com um som de estalo.

 

Expatriadas

Quarta Feira, 19 Set. 2012

DICAS PARA UMA MÃE EXPATRIADA

 

Regina Assumpção é geógrafa com especialização em comunicação e marketing e psicodrama. Sócia da Shagal, ela é contratada por empresas para ajudar na adaptação dos expatriados que chegam ao Brasil e também dos seus cônjuges e filhos. Nessa entrevista, ela fala sobre alguns dos principais desafios que uma família pode enfrentar ao se mudar para outro país.

 

- O que um casal que já tem ou planeja ter filhos precisa avaliar antes de se mudar para outro país?

 

Aspectos de infra-estrutura hospitalar e maternal - como é ter um bebê em Angola, na Índia ou mesmo no Brasil. Quais os mitos e qual é a realidade local. Outro fator que influencia muito é o tempo da expatriação e os benefícios para o casal e para a criança - desde, claro, a cidadania, até mesmo quais impactos positivos que todos podem se beneficiar dessa possibilidade. Um ponto a ser considerado é que a criança pode ser alfabetizada em outro idioma, por exemplo.

De outro lado, criar confiança para deixar a criança com outras pessoas leva tempo. É preciso avaliar se terão esse tempo. Além disso, deve ser levada em consideração a disponibilidade de algum parente estar presente no momento do nascimento e primeiros dias, quando o cônjuge volta a trabalhar. Isso pode facilitar a decisão.

 

 

- Quais costumam ser as maiores barreiras das crianças quando se mudam para o exterior?

 

Idioma sempre é a primeira barreira. Hábitos escolares podem influenciar - e a alimentação na escola pode ser muito diferente da qual a criança está acostumada - portanto, a comida pode ser outra barreira importante. A própria rotina escolar pode ser uma dificuldade. Relacionamento com outras crianças também pode levar algum tempo. O clima pode ser bem diferente também. Isso pode gerar mais gripes, resfriados, etc.

 

- Que dicas você daria para facilitar a adaptação das crianças?

Barreiras linguísticas - assistir TV e DVDs no idioma local. Deixar o rádio ligado no carro, em algum canal de notícias; ter aulas de idiomas (em geral, em particular rende mais, em grupo é mais divertido - um mix dos dois é o ideal);

Barreiras gastronômicas - identificar se existem produtos que causam muito desconforto à criança e conversar na escola. Levar a criança no supermercado/feira/hortifruti, mostrar a comida para ela, fazê-la participar da preparação de alimentos com produtos locais pode ajudar muito!

Barreira devido à rotina escolar - começar devagar, sem muitas expectativas. 

Relacionamento com outras crianças - todo mundo quer se sentir integrado. Aos poucos, é legal ir convidando amigos para casa; tentar ficar na porta da escola para conhecer outras mães; entender que além da questão cultural, a questão familiar influencia muito e cada família tem seu código de valores. Nesse caso, identificar aquela família em que alguns valores combinam, pois isso vai facilitar a adaptação das crianças nas situações extra-escolares.

 

 

- E para os pais, que desafios são mais comuns?

 

Quando um casal é expatriado, leva tempo para conhecer outras pessoas, ganhar confiança e também conhecer os hábitos do país hospedeiro. Um grande desafio é deixar os filhos com alguém, para saírem a dois, irem a algum evento da empresa, etc. Muitas vezes eles não conhecem ninguém no local e ficam com medo de deixar os filhos com uma babá ou empregada. Ou mesmo com outros expatriados, pois ainda não têm confiança. Com isso, o casal deixa de sair sozinho e isso pode, para alguns, prejudicar o relacionamento. Por outro lado, em muitos países é comum levar os filhos pequenos em programas "noturnos" e isso acaba causando um embaraço ou constrangimento quando percebem que crianças não são bem-vindas.

Além disso, o cônjuge que fica com as crianças em geral fica inseguro ao levar ao pronto-socorro, hospital ou mesmo pediatra sem o/a parceiro/a. O fato é que o expatriado que veio trabalhar tem que administrar a ansiedade do cônjuge sem deixar de lado sua carreira.

 


- É verdade que os filhos se adaptam mais rapidamente que os próprios pais?

 

Muito mais rápido! A criança tem menos preconceitos e o repertório também é menor. Em geral, estão querendo descobrir coisas o tempo todo e ainda não têm muitos elementos de comparação.

 

 

- Quais são os aspectos que as estrangeiras que vêm morar no Brasil mais gostam e mais reclamam do nosso país no que diz respeito à vida com crianças?

 

Em geral, elas gostam muito da possibilidade de contar com mão de obra como babás e empregadas, gostam do clima e da comida. Reclamam da falta de segurança e da falta de opção de lazer (inclusive pela falta de segurança) para crianças e jovens (que acabam ficando muito tempo em shoppings, por exemplo; em vez de desfrutarem de parques ou da liberdade de ir e vir sem a supervisão de um adulto).

 

- Uma criança que tem sua formação em diferentes países adquire uma experiência global, mas por outro lado não forma raízes. Qual o impacto dessa realidade no desenvolvimento das crianças? Imagino que vocês acompanhem bastante esse universo. 

 

Hoje em dia, a tecnologia ajuda muito. Nada como as redes sociais, as facilidades de viagens e a facilidade de comunicação (skype, msn, whatsapp, etc.). Mas, sem dúvida, apesar dos benefícios e da flexibilidade que essas crianças adquirem, faltam raízes e sabe-se que mudar com filhos na adolescência é sempre muito mais difícil. Em geral, os jovens querem ficar com os amigos que já criaram e as despedidas são bem complicadas e a adaptação em novo ambiente mais lenta. O ideal é mudar com crianças pequenas. No caso de jovens com mais de 17 anos, muitas vezes, as famílias resolvem se o jovem vai na mudança ou fica no país de origem, para terminar estudos e ir para faculdade, por exemplo.

 

- Como é o trabalho de vocês para ajudar as mães expatriadas?

 

Sabemos que a adaptação da família é fundamental para que o expatriado possa desempenhar bem seu papel na corporação e possa atingir os resultados que foram definidos. Por isso, focamos muito no cônjuge (na maioria, ainda mulheres) e nos filhos - temos programas para jovens a partir de 12 anos, para facilitar a integração - essa é a palavra chave para o sucesso de uma expatriação. Todos devem se sentir integrados no novo ambiente. Também preparamos para as mães uma cartilha de sobrevivência - com dicas a respeito de saúde (também lista de hospitais, clínicas e médicos que falem a língua de origem ou, pelo menos, inglês); lazer, alimentação, ajuda doméstica, educação, entre outros. Além disso, nos treinamentos interculturais para estrangeiros que estão chegando, podemos sempre contar com uma ajudante para ficar com crianças menores durante o programa, com algumas atividades de lazer e de introdução à cultura brasileira.

 

Dinheiro

Quarta Feira, 5 Set. 2012

GUSTAVO CERBASI: "CRIANÇA NÃO É CUSTO."

 
Quando começar a falar de dinheiro com as crianças e como saber de que forma abordar o assunto de acordo com cada idade?
 
Educação financeira tem a ver com disciplina, com organização pessoal, com qualidade das suas escolhas. Uma criança que tem hora certa para se alimentar, para tomar banho, para dormir, provavelmente será uma criança mais pendente à disciplina. Estes são aspectos não lógicos, não racionais das finanças, mas são importantes. Uma criança disciplinada certamente terá mais vantagem em relação às finanças do que uma criança indisciplinada. Nem estou falando sobre a comparação entre uma criança de perfil mais lógico e outra intuitiva, ou uma racional e uma mais emocional – estamos falando sobre uma tendência de uma pessoa se sentir bem em um ambiente organizado. E isso começa lá atrás.
 
A partir do momento em que a criança já tem a percepção do mundo, daquilo que está acontecendo ao seu redor, com um ano e meio, dois anos de idade, ela já começa a ter curiosidade em relação ao dinheiro. Essa criança não vai fazer contas em breve, mas ela percebe que existe uma relação entre os adultos e o dinheiro. Esse é o momento de começar a envolvê-la de maneira lúdica e divertida.
 
Dinheiro pode e deve ser manipulado pela criança. Ela pode entregar o cartão de débito na padaria ou entregar o dinheiro e esperar pelo troco e pelo comprovante. Você vai criando uma cultura de naturalidade do dinheiro. Um dos elementos mais perigosos no comportamento financeiro é quando a pessoa desenvolve uma paixão pelo dinheiro. “Não pode, não pode, não pode, não tem, não tem, não tem” – para uma criança, isso significa querer gastar dinheiro compulsivamente quando chegar à vida adulta e tiver dinheiro para gastar. O envolvimento natural é muito mais importante do que ensinar a criança a fazer contas, a manipular o dinheiro, a planilhar.
 
Educação financeira para crianças tem que ser envolvente, divertida, todos os dias, com uma atenção muito grande dos adultos – não como uma aulinha de finanças, mas no sentido de não perder a oportunidade de mostrar que a relação com o dinheiro é uma conquista, por exemplo. Mostrar que sacrifícios conduzem a recompensas. Dinheiro faz parte da vida, mas não devemos desenvolver uma paixão por ele. Tudo isso é educação financeira.
 
 
Hoje as crianças são bombardeadas com estímulo ao consumo. Como incentivar o uso responsável do dinheiro?
 
Na verdade o consumismo da criança é um reflexo do comportamento adulto.
Normalmente crianças que têm um comportamento compulsivo são filhas de adultos que têm um comportamento compulsivo ou muito desleixado em relação ao dinheiro.
 
Com relação ao marketing, que estimula muito o desejo de consumo das crianças, este é um dos motivos que fazem com que eu defenda a ideia de que antes da educação financeira deveria vir o estudo da filosofia, que nos ajuda a questionar se o que dizem que é importante para a gente realmente é, se aquela propaganda na televisão está ou não está manipulando nosso comportamento, se nós realmente precisamos ou queremos alguma coisa.
 
Sempre antes de uma atitude de consumo deve haver um planejamento prévio, mesmo que seja para a realização de um sonho. Não devemos dizer para a criança que ela não pode ter determinado brinquedo. Quando ela quer muito alguma coisa, desde que seja adequada para a idade, a melhor atitude que um pai ou uma mãe podem ter é falar “você quer mesmo? Então vamos ver quando dá pra você comprar, o que você vai ter que deixar de comprar para poder ter aquele brinquedo”. É importante ensinar a criança a querer conquistar alguma coisa. Muita gente acha que planejamento financeiro é privação, e não é isso. Educação financeira é você se organizar, se planejar para realizar seus sonhos na vida.
 
Não adianta ensinar a criança a nunca ceder às tentações de consumo, mas sim ensiná-la a entender as diferentes tentações e dar maior importância à que seja mais importante para ela e perseguir essa uma com disciplina pelo tempo que
for necessário. Dar valor àquilo que se conquista com alguma poupança, com alguma privação. Esse processo tem que ser visto como positivo, e não como um castigo na vida da criança. Senão ela vai desenvolver uma aversão a qualquer tipo de planejamento.
 
 
Você consegue então aplicar na prática todos esses conceitos de educação financeira para crianças...
 
Meu filho mais velho, desde os dois anos e meio de idade faz questão de entregar o cartão de crédito ou débito na padaria, gosta de exigir o comprovante fiscal – é quase que uma brincadeira de se sentir adulto, mas que já tem relação com a educação financeira e com a responsabilidade social. Falar de dinheiro com ele é uma coisa natural.
 
 
Ou seja, vivemos em um mundo capitalista e não adianta ignorar o dinheiro...
 
Muito pelo contrário, o dinheiro faz parte de todas as nossas escolhas. O ideal é que a criança entenda o dinheiro como um elemento fluido na nossa vida, que ele faz parte e está relacionado à grande parte das nossas decisões, mas que ele não é o grande centro das nossas escolhas. É muito mais importante meu filho buscar um grande sonho e usar tanto dinheiro quanto criatividade para alcançá- lo, do que fazer da sua vida uma grande preocupação com contas e dinheiro e transformar isso numa grande – e péssima – obsessão.
 
 
Cofrinho e mesada são soluções importantes para a educação financeira? Como não banalizar essas iniciativas?
 
São importantes desde que desenvolvidas dentro de um contexto de educação financeira. Simplesmente dar um cofrinho como um brinquedo ou um espaço para guardar moedas é pouco produtivo – na verdade é um desrespeito ao dinheiro, porque quando você guarda dinheiro sem pensar em uma utilidade dele para o futuro, você está tirando moedas de circulação, que é um custo para economia.
 
O cofrinho tem que servir para desenvolver um estímulo, uma poupança para alguma realização. A criança pode até receber um estímulo do papai e da mamãe como recompensa daquele sacrifício, dobrando o valor poupado. Isso aconteceu com meus filhos em uma viagem. Eles quebraram o cofrinho (eu gosto da cerimônia de quebrar mesmo o cofrinho) e encontramos R$ 120 em moeda. Eu sempre proponho dobrar o valor do que tinha no cofre, então cada um ficou com R$ 120 para gastar na viagem como quisesse. Curiosamente, meu filho mais velho, de cinco anos, gastou tudo no terceiro dia de viagem, comprou todos os brinquedos que queria. A mais nova, de três, disse “meu irmão já comprou muitos brinquedos, vou brincar com os dele” e guardou o dinheiro dela. Conclusão: o dinheiro dela voltou para o cofrinho e ela sabe que vai sacar em dobro na próxima viagem. Mesmo saber quanto vale esse dinheiro, ela sabe que está aumentando o poder de compra.
 
Com relação à mesada, a ressalva que eu faço é que ela não é um direito das crianças, não é um presente, não é autonomia da criança. Isso é uma forma ruim de educar. A mesada será bem trabalhada quando for entendida como o direito que se dá à criança de administrar uma pequena parte do orçamento da família. Quem ganhou esse dinheiro foi a família, o pai, a mãe. Essa parte refere-se ao consumo que a criança vai fazer sem os pais estarem presentes, como comprar o lanche na cantina da escola ou gastar em um passeio com os amigos no shopping no final de semana. O importante é que se sugira um valor a partir do comportamento que se espera da criança – quanto você vai gastar na cantina? Precisa comer lá todos os dias? Se na cantina se gasta R$ 4 por dia, podemos sugerir que a criança receba os R$ 20 por semana, mas que poupe R$ 4 e, em um dos dias, leve lanche de casa. O esforço que a família faz para que essa criança faça uma poupança para gastar com alguma coisa que ela goste, como figurinhas por exemplo, é forma de flexibilizar a mesada. É importante acompanhar como a criança está gastando a mesada, conversar com o filho sobre isso de forma natural, sugerindo ajuda se for necessário na administração do dinheiro, mas sem cobranças.
 
 
Tem uma fórmula adequada para se calcular valor de mesada?
 
Há autores que sugerem um valor de R$ 1 por semana por cada ano de idade da criança – se a criança tem 10 anos, ganha R$ 10 por semana, por exemplo. Mas eu não gosto muito disso porque padroniza as pessoas. Cada família tem um padrão de vida e de consumo diferente da outra. Deve haver bom senso e uma combinação clara entre pais e filhos sobre porque tal valor. A mesada vai envolver a compra de roupas no shopping, por exemplo? Por que o filho acha que tem que escolher a sua roupa? Os pais é que devem definir o que cabe e o que não cabe no padrão de vida da sua família. É importante ter uma atitude construtiva – a criança ainda não tem maturidade para tomar decisões sobre as escolhas que atendem ao seu padrão de vida e de consumo.
 
 
As escolas já estão começando a tratar de educação financeira ou isso hoje ainda é responsabilidade exclusiva dos pais?
 
Estamos em um momento muito interessante da educação financeira no Brasil, com muito debate aberto na sociedade sobre o assunto. As escolas têm se movimentado já há uns quatro ou cinco anos. É bem comum encontrar entre as escolas privadas ainda não a disciplina educação financeira, mas uma preocupação multidisciplinar com o assunto, um debate entre a matemática, a filosofia, a ecologia, a racionalização do uso de recursos, o uso inteligente do dinheiro, a brincadeira da feirinha.... Tudo isso vem sendo trabalhado em escolas.
 
A partir de 2013, segundo a Estratégia Nacional de Educação Financeira (ENEF), do governo federal, 100% das escolas públicas terão educação financeira como disciplina recomendada (ainda não obrigatória). As escolas terão suporte de apostilas preparadas pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC), com todo um programa didático desenvolvido e aprovado pelo governo para as escolas públicas.
 
 
Você costuma fazer aquele cálculo de quanto custa um filho ao longo da vida?
 
Eu abomino esse cálculo. Para mim não faz o menor sentido, porque esse cálculo parte do pressuposto que os pais não sabem lidar com o dinheiro ou não têm qualidade de consumo. Criança não é custo. Se você colocar na ponta do lápis, minha esposa custa mais do que meu filho, então é melhor eu não ter uma esposa?
 
Existe o conceito de qualidade de consumo. Obter bem estar, prazer do dinheiro que você usa. A maioria das famílias brasileiras não consegue isso porque exagera nas grandes escolhas: compra uma casa mais cara do que poderia pagar, compra um carro ou uma TV mais caros do que deveria... Enche o orçamento de prestações e aí não sobra dinheiro para o bem-estar, para a qualidade de vida, para o lazer. Quando se tem um filho, atividades como jantar fora, viajar e sair de férias passam a não ser importantes no primeiro ano do nascimento do filho. O bem-estar que antes acontecia fora passa a se dar dentro de casa junto do bebê. Os gastos que são direcionados a um chá de bebê, à compra de um berço, de fraldas ou do carrinho, não são, na verdade, adicionais, eles acabam substituindo outros gastos que se deixa de ter com a nova vida. Além disso, a mulher e o homem que têm filhos têm uma tendência de aumentar a produtividade no trabalho e, com isso, aumenta a capacidade de renda do casal. Ou seja, essa conta do custo do filho não faz sentido. O importante é que as famílias ajustem suas despesas para ter uma maior qualidade de consumo e de vida.