© 2017 Mamatraca - Site criado por Confia.Me

  • Grey Facebook Icon
  • Grey Twitter Icon
  • Grey YouTube Icon
  • Grey Instagram Icon

Os maiores desafios da maternidade gemelar

13/10/2011

Hoje o Mamatraca traz uma entrevista muito especial com a Sâmara Jorge. Além de ser mãe das gêmeas Júlia e Isadora de 13 anos, ela também é psicóloga clínica, orienta pais de múltiplos e é articulista em diversas revistas e sites. Confira essa entrevista em que ela desmistifica algumas questões referentes ao convívio e educação de gêmeos.

 

 

 

 

Sabemos que é importante para o desenvolvimento emocional do recém-nascido a mãe ter tempo para dedicar-se e ser totalmente voltada a ele. Com múltiplos isso é impossível, o bebê divide a atenção e a energia da mãe com, pelo menos, mais uma criança. Isso tem algum impacto na vida da criança?

 

É verdade. É muito importante para o desenvolvimento a presença e atenção da mãe nos primeiros tempos de vida. Com os múltiplos, isso fica um pouco mais difícil. Acho que alguns fatores podem ajudar. A ajuda e a participação do pai, avós ou mesmo uma babá pode ser de grande valia. Não apenas no sentido de cuidar do bebê e acalmá-lo, mas de possibilitar que a mãe fique mais tranqüila com uma das crianças e possa se dedicar integralmente à ela naquele momento. Entretanto, sabemos que na realidade isso nem sempre é possível. Há muitas mães que não têm pessoas por perto e têm que dar conta de tudo sozinhas. E isso não quer dizer que seus filhos terão problemas por ter que esperar um pouquinho para ter sua fralda trocada ou mamar, ou ter o colo da mãe. A espera é natural e inevitável em caso de múltiplos. Pode até mesmo ser uma experiência positiva para que as crianças aprendam a lidar com as frustrações e os adiamentos que terão que enfrentar ao longo de suas vidas. O mais importante é que a mãe procure não se desesperar ou se culpar quando não pode dar a mesma atenção a todos. E curtir alguns momentos descontraídos com cada bebê, quando isso for possível.

 

A questão da identidade é muito discutida quando se fala de gêmeos, principalmente em relação aos univitelinos. O que deve ser feito? Estratégias como separar de turma na escola, cortar o cabelo diferente e/ou colocar em quartos separados devem ser adotadas?

 

Essa é uma da maiores preocupações quando se trata de gêmeos. Cada uma dessas estratégias que você colocou daria uma longa reflexão, porque, na verdade, cada caso é um caso. Evitar usar as mesmas roupas é bom, pois ajuda a diferenciá-los. Entretanto, é preciso ter cuidado para não ir ao outro extremo. Eles são idênticos e isso é um fato. Negar essa realidade pode trazer uma compreensão distorcida de si mesmo. Como o caso de uma menininha, gêmea idêntica, que começou a achar que ser igual à irmã era um problema sério, pois todos queriam separá-las ou diferenciá-las! Mais importante do que medidas práticas, como roupas, cabelos, ou sala de aula assunto polêmico, ainda!) é olhar para cada criança como única, se relacionar com cada uma a partir de suas necessidades e singularidades e não tratá-las como um “bloco”, uma coisa só. As crianças manifestam, desde muito cedo características de personalidade e ter um olhar acolhedor para as características de cada criança é o que vai ajudá-la a se manifestar como uma pessoa única e se diferenciar (no que tiver que se diferenciar) dos outros irmãos. E manifestar, também, com tranqüilidade e naturalidade, o que for semelhante.

 

As mães de gêmeos acabam achando bem difícil não comparar seus filhos. Elas esperam que eles andem, falem e aprendam tudo no mesmo ritmo. Até que ponto isso é prejudicial? Você tem dicas para mães de múltiplos?

 

Essa é outra questão importantíssima quando se trata de gêmeos! Comparações são inevitáveis. Não há como fugir delas, nem mesmo as que nós, os pais, fazemos! Mas há formas e formas de lidar com elas. Comparações imbuídas de julgamentos de valor são extremamente prejudiciais. Tais como: “Quem é mais bonzinho?” ou “Qual deles é mais esperto”? Nenhum!! Sabe aquele mito do gêmeo bom e do gêmeo mau? Pois é, parece haver uma crença de que isso acontece com eles. Todos podemos ser bonzinhos ou não, espertos ou não, dependendo da situação ou do momento de vida pelo qual estamos passando. Esse tipo de comparação pode provocar ciúme, competição e comprometer a auto-estima das crianças. Além disso, quando comparadas dessa forma, as crianças tendem a ficar rígidas em determinadas posições e não experimentar a diversidade que existe dentro delas. Mas, na minha opinião, há uma forma criativa de lidar com as comparações e que pode até contribuir para que a criança reconheça suas diferenças e potenciais sem se sentir pior ou melhor do que o irmão. Vou dar um exemplo do que aconteceu com duas gêmeas quando tinham sete anos: Em uma situação social, Maria compôs uma música e quando mostrou aos adultos, todos se voltaram para Clara e para a mãe perguntando se ela não teria feito o mesmo. A situação foi bastante desconfortável para as meninas. Os pais deixaram claro para os amigos, e especialmente para Clara, que quem tinha habilidade para música era Maria e que Clara possuía outras habilidades diferentes da irmã. Essa me parece ser uma boa saída para situações como essa, pois legitima as diferenças entre os irmãos e reafirma os potenciais de cada um a todos e, especialmente a Clara, que possuía outras habilidades.

 

E o vínculo intenso que todos dizem existir entre gêmeos, existe mesmo?

 

Embora não existam pesquisas que comprovem cientificamente essa hipótese, parece haver uma forte e intrínseca relação entre os gêmeos, sim. Penso que deve ser uma experiência única dividir tudo com um ou mais irmãos (até mesmo a barriga!). Os gêmeos, ao contrário de outras crianças, estão sempre acompanhados por outro irmão da mesma idade, compartilham experiências, lugares, amigos e situações, especialmente nos primeiros anos de vida. A cumplicidade, o cuidado entre si são características muito presentes entre gêmeos. Mas isso não quer dizer que um necessariamente sinta o que o outro sente, ou que nunca se afastarão. Ou ainda que sejam “almas gêmeas” com muitos acreditam. As características pessoais e a forma como são educados, cuidados e “vistos” pelos pais também contribuem muito para a qualidade e a intensidade do vínculo que terão.  

 

Na sua opinião como psicóloga e mãe de gêmeas, qual o principal desafio da mãe de múltiplos?

 

É lidar com as cobranças internas de atender e cuidar da mesma forma de cada filho e o desejo de dar conta de tudo o que diz respeito a eles, sem que nenhum seja preterido. E quando, por acaso, isso acontece, se culpar por não ser duas, ou três, ou quatro! É natural que existam momentos em que o estresse, o cansaço e às vezes a falta de disponibilidade para a rotina dos múltiplos, se tornem presentes. E não é fácil aceitar que esses momentos fazem parte, assim como outros, tão gostosos, em que estamos alegres e dispostas para cuidar e interagir com nossos filhos. Precisamos sempre lembrar que não somos super-heroínas e que temos limites como todos os outros seres humanos.

 

Tags:

Please reload

Gostou do conteúdo? Compartilhe!

Gostou do Texto? Apoie para o que o Mamatraca siga livre de publicidade corporativa!

Não pode doar? Comente, curta, compartilhe e volte sempre!

Please reload