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Você é capaz de amamentar o seu filho: mas é melhor se preparar

20/05/2016

ou

Formas sutis de dizer que você não pode!

 

Texto originalmente publicado no finado Super Duper em 27/02/2013

 

 

 

Assisti o trailer do documentário Milky Way

Uma frase desse pequeno trailer me chamou atenção:

 

"Temos que começar a questionar do que estamos privando as mães quando dizemos para elas que não são capazes de amamentar seus bebês."

 

Isso ficou ecoando na minha cabeça, porque eu nunca havia entendido que o mundo acreditava que eu seria incapaz de aleitar meu filho. Mesmo assim, eu morria de medo de não conseguir, de falhar. Essa incoerência não faz sentido, se eu me acreditava capaz, porque o medo? E quando eu me questiono do que estamos privando as mães quando elas acreditam que não são capazes de amamentar seus filhos, eu vejo isso:

 

 

 

Tem um olhar que as crianças fazem quando mamam. É efêmero,  só para a mãe. É um lampejo entre as almas, através das janelas, os olhos. É disso que estamos privando as mães, quando nos comportamos como se elas fossem incapazes. Um prêmio para quem adivinhar que filho é esse.

 

Meu medo de falhar morava nos discursos escondidos de uma sociedade que me dizia que eu não era capaz. Assim como havia dito que eu não seria capaz de parí-los, coisa que na minha primeira maternidade, eu acreditei. Pontuando que o sucesso na amamentação (como em qualquer coisa da vida) é variável para cada binômio mãe X bebê, acho que o verdadeiro insucesso se resume à ausência de protagonismo das decisões. Quem realmente "estava lá" e mesmo assim não atingiu um tal "sucesso" entende que para si, o sucesso é diferente. E se satisfaz. 

Mas quando o assunto é amamentação: olho à minha volta e vejo pouca satisfação. Reflito e entendo que para uma mulher contemporânea, falhar é o caminho pré determinado. Elenco para vocês onde estão os sinais de que existe um contexto maior, querendo que nossos bebês não mamem. Querendo nos privar "daquele olhar".

 

Oferta indiscriminada de mamadeiras e chupetas muito antes do bebê nascer. 

 

Uma lista de enxoval convencional é repleta de substitutos ao leite materno. Uma mãe comum é capaz de comprar muitos desses apetrechos sem se questionar se eles serão realmente necessários. E é difícil entender que a mensagem por trás deles é: "você não vai conseguir", ao invés de "feito para te ajudar". Não me odeiem, eu também comprei chupeta.

 

 

 "Kit completo para Amamentação" diz a loja. O produto ainda leva o selo "closer to nature", o mais próximo da natureza que se pode chegar em produtos de plástico.

 

 

 

Acessibilidade pandêmica aos substitutos do leite. 

 

Chegando em comunidades ribeirinhas, como mostra o documentário Muito Além do Peso. Nos corredores loucos do supermercado, com todos os tipos possíveis de latas. Nos consultórios dos pediatras mediante as mais parcas variações de peso dos bebês, cansaços e tensões maternas ou simplesmente por motivo nenhum mesmo. 

 

Investida agressiva das indústrias em publicidade para esses alimentos. 

 

Me parece a forma mais clara e eficiente de todas elas de nos manter, mulheres, isoladas das nossas capacidades nutrizes. Pois para cada mãe que acredita que o leite da lata é bom, confiável e seguro, existe um punhado de dutos lactíferos deprimidos, secando por falta de uso. E as propagandas são tão sacanas, que passam como inofensivas.

 

 

 

 

Sente o compartilhamento - gratuito - que a marca consegue através da desinformação do público que a respeita como se fosse gente. Print do meu Facebook, tão burro que não sabe que eu não sou público alvo desse produto.

 

Conselhos maluquetes no pré parto. 

 

Eu mesma desconfio dos meus pares, quando vejo um barrigão despontando no meu círculo de amigas. Tenho fé (depois de alguns anos de construção) de que aquele corpo feminino vai saber o que fazer e é plenamente capaz de sustentar aquela criança. Mas as estatísticas jogam contra, e analisando friamente, o corpo feminino tem poucas chances quando colocado no meio que o cerca. Eu me pego com vontade de receitar creminhos milagrosos e preparação ao sol. Existe qualquer coisa que prepare uma mulher para amamentar se não o investimento em sua confiança em si própria?

 

Gente que panica com os peitos. 

 

As mitologias com peitos perturbam qualquer mulher com vontade de amamentar. Está incrustado na nossa cultura que mulheres são aquelas que tem os peitos. Homens amam peitos. Para ter algum poder sobre eles, é preciso que os peitos sejam também para o deleite masculino. E estabeleceram sei lá quando que o peito certo, aquele que os homens gostam, tem tal formato, tal peso. Ficam bem em tal roupa e tal decote. Peitos bons não podem cair. Essa é uma forma bastante eficaz de sabotar a amamentação. Em tempo, peitos caem. Eu não sei se a amamentação tem ou não tem a ver com isso.

 

 Fui no Google e joguei "seios perfeitos". Não há sequer uma imagem de amamentação relacionada à perfeição dos seios. O que são seios perfeitos para a mulher contemporânea?

 

 

Olhares tortos para mulheres que amamentam. 

 

Na frente dos outros ou em locais diferentes de banheiros, quartos fechados e poltronas de amamentação escalafobéticas enfiadas embaixo do microondas. Microondas esse que serve para esquentar a fórmula. A amamentação perdeu espaço na nossa vida cotidiana. Cada mulher que se esconde para amamentar perde a chance de dizer para o filho pequeno, para a sobrinha mais velha ou para a amiga que ainda não tem filhos de que sim, somos capazes. Isso inclui as burcas para esconder o seio.

 

 Neste curioso modelo podemos imaginar que há um bebê embaixo da maior fatia de mortadela que já se viu no planeta. Imagem daqui

 

 

Matérias esquisitas sobre amamentação nas grandes mídias. 

 

Quando insistem que a amamentação é um desafio e colocam a responsabilidade inteira na mulher, se eximindo da culpa que projetam nos outros. A culpa é sua, paciência. Negue-a e siga feliz. Um monte de abordagens "em defesa da mulher que não consegue amamentar",  colocando nela a responsabilidade pelo fato ou opção e esquecendo de convidar marido, pediatra e gerente de marketing para o caldo. Enquanto se a gente colocar óculos vai enxergar que "a culpa" é de um monte de fatores. Dentre eles, o espaço magnânimo que esses discursos desempoderantes tem. Acho muito brega essa coisa de empoderar, sério mesmo. Mas não há nada mais poderoso do que não precisar de nada para nutrir um bebê. E aí, como vai vender revista para mãe segura??

 

 

 

Matéria esquisitona da Revista Pais & Filhos, que pode ser lida na íntegra aqui. Nada contra a revista em sua totalidade, mas totalmente à favor de questionar o porque amamentação é sempre um assunto tratado como cabeludo. Qual o interesse real da imprensa em investir na discussão "rigidez desses prazos, dois anos amamentando para uma mulher que trabalha não é bolinho"... ao invés de investir na discussão de políticas públicas que beneficiem mulheres, controlem empresas, enfim. Matéria esquisitona.

 

Ameaças veladas sobre o casamento. 

 

Não se trata somente do peito. A amamentação representa aos olhos de muita gente uma forma de perder o marido, já pensou desquitar? Lá dentro todo mundo sabe que a mãe até um certo ponto só se doa ao filho, e seguimos nessa mentalidade de que mulheres precisam estar casadas, e que casamentos são sagrados. É bizarro como um garoto pendurado no peito por mais tempo do que um marido possa agüentar (na ótica dos preocupados com o casamento dos outros) esquenta as paciências dos entornos. Vai que desquita!

 

As atrizes e demais imagens aspiracionais do coletivo. 

 

Lindas, loiras, lisas, magras, altas, ricas, bem sucedidas, completas com mamadeira e/ou fórmula em punho. Em nome da libertação da mulher, traçam uma linha de tijolos amarelos reluzentes que nos ligam às conquistas do mundo contemporâneo enquanto separam as boquinhas dos bebês do bico do seio. Sacanagem. Vemos algumas bonitezas amamentando. Vemos também as bonitezas amamentando só para não ficar mal na fita. Acho bobo sinceramente. Não quer amamentar, assume que fez uma opção que não prioriza a saúde do filho, e tudo bem. Todas sabemos que não priorizamos os filhos em milhares das nossas decisões cotidianas, algumas vezes por falta de opção e outras por excesso de. Graças aos esforços de comunicação das anti-vertentes da publicidade de alimentos lácteos, mas que não deixam de ser comunicações de mercado, já está impregnado que não amamentar também não é legal. Daí precisa do Posternak  para "defender a mãe que não amamenta" das patrulheiras como eu, que acham estranho quando os símbolos de mulher do coletivo manifestam sua vertente "mãe" da forma mais distante possível.

 

..."É que ela estava amamentado Rafael, de 1 mês, no camarim e teve que correr para não atrasar os colegas. “Preciso de uma capa de super-mulher para dar conta de tudo, mas essa é a realidade da mãe que tem que trabalhar. Congelo e estoco leite. E difícil, mas a gente consegue”, contou Claudia, que volta a fazer turnê em outubro. As gravações do programa começaram nessa segunda e a cantora já esta exibindo até barriguinha de fora." Fonte: Glamurama

 

 

Cláudia Leitenamamadeira dias depois do nascimento do filho. Ainda que Leite humano e independente da história individual da envolvida, a cultura da mamadeira espalhada pelos modelos de mães/mulheres não favorece em nada a mulher que quer amamentar. Quantas novelas vemos com mães amamentando no seio? Imagem original do Instagrama da Claudia Leitenamamadeira retirada daqui.

 

 

Empregos babacas. 

 

Onde já se viu o tipo de incentivo que a mulher recebe para amamentar? Porque o esforço é só da mulher? Cadê salinha de ordenha, máquinas de última geração, geladeiras, flexibilidade para levar o filho ao trabalho, flexibilidade para trabalhar de casa quando possível, leis que protejam a lactação, incentivo do governo através de licenças maternidades inteligentes? Quando uma mulher volta ao trabalho e se vira nos trinta para manter a lactação é ela simplesmente dizendo que ouviu que não é capaz. Mas resolveu ignorar. Todos os empregos babacas nos dizem diariamente que não podemos amamentar. Amamentar é ruim para os babacas. (PS: eu preciso desabafar, tenho uma amiga próxima em lactação exclusiva retornando ao emprego onde não existe nenhum local e nem um momento específico onde ela possa ordenhar o leite. Ela vai ao banheiro nos momentos em que conseguiria fazer um xixi e esvazia as tetas NA PIA, joga fora o leite que poderia nutrir seu filho ou outra criança. O local que ela trabalha: uma escola particular renomada. É para ter mastite no cérebro, ou não é??)

 

Bonecas esdrúxulas e imagens aspiracionais do coletivo infantil. 

 

Todo raio de bebezinho nas prateleiras das lojas vem com chupeta e mamadeira. As meninas pequenas não vêem suas mães e tias amamentando. Ou porque elas não amamentaram, ou porque se escondem para fazê-lo (nos banheiros ou atrás de mortadelas gigantes) e praticam com as bonecas aquilo que o brinquedo oferece: alimentação artificial. É a cultura do leite de lata substituindo o seio materno, desde que eu nasci. Eu como curto uma manifestação meio loba-solitária boicoto e desdenho de qualquer brinquedo que substitua no imaginário infantil a possibilidade de exercer um ou outro afazer materno com prazer. Independente de ser "brincadeirinha" ou não, sem grandes reflexões, acho que as mamadeiras já tem bastante espaço na vida das crianças, sem que estejam infiltradas também nas bonecas. Uma pesssoa próxima e querida outro dia me sugeriu que a melhor manifestação contra a invasão das mamadeiras nas caixas das bonecas seria que um de nós passasse pelo corredor das bonecas com fluido de isqueiro e o outro alguns minutos depois com uma caixa de fósforo. Vejam bem, sobre esse ponto de vista, como o boicote parece uma atitude equilibrada, sensata e totalmente civilizada. Equilíbrio: depende até onde a vista enxerga os pólos.

 

 

Boneca Baby Alive, que dizem, faz até cocô de verdade. Mas não mama de verdade. Imagem daqui

 

 

Homens alienados do processo. 

 

A cada chá de bebê só para mulheres que rouba a oportunidade de um verdadeiro encontro com segredos do feminino, histórias para dividir e troca de experiências e coloca no lugar uma festa de consumo desenfreado para receber um bebê cercado de coisas práticas ao invés de emoções disponíveis, alienando os pais e as mães do processo em um evento só, eu vejo o mundo gritando na cabeça da gestante: você não vai conseguir, a responsabilidade por esse filho é só sua, e esse mundaréu de coisa serve para te apaziguar a alma. Não me odeiem, eu tb fiz chá de bebê. Uma vez para nunca mais!

 

Nojinhos e preconceitos infundados quanto ao leite humano, propriamente dito. 

 

Diversas vezes eu ofereci um copo do meu leite para conhecidos. Amigos, parentes e visitas em casa. Todo mundo olhou com asco a minha experiência empírica. Como se eu estivesse lhes oferecendo cocô. Não obstante ninguém tem nojo da teta da vaca, e todo mundo toma leite bovino sem cerimônias. Claro está que essa era uma tentativa minha de radicalizar, coisa que me diverte, e de fato não acho que ninguém a não ser o bebê tem que tomar leite humano. Mas a aceitação do líquido que sai das tetas da mulher é péssima. Já vi gente reclamando com puérpera do "azedo" que ela exalava. E quem nunca tomou um "seu leite é fraco" para um bebê esguio sobre ameaças de morte por inanição. Ou "seu leite é gordo" para um bebê fofoletes sobre ameaça de obesidade infantil determinada. Todo mundo ama um leite condensado. Põe leite materno condensado, vê no que dá.

 

Leite do úbere da vaquinha - todos gosta! Imagem daqui.

 

 

Calendários, Horários, Balanças, Curvas, Agendas, Números e Medidas. 

 

Talvez uma das formas mais sutis de dizer que uma mulher não vai conseguir amamentar o bebê é usar os números. De todas os jeitos. Sugerir que ela amamente em horários determinados, ou que saiba a quantidade que o bebê mamou. Onde já se viu perguntar para uma mulher que amamenta o quanto o bebê mamou? Não há sequer um peito na história da humanidade milimetrado com as quantidades de leite, peitos transparentes, eu também quis ter um a cada vez que alguém me perguntava "se ele mamou bem". Isso é coisa das mamadeiras. Os bebês tem fome (ou não) e não sabem que horas são. Isso é coisa dos relógios. Alguns entram na curva. Outros nunca entrarão. Curvas, balcanças e datas certas para isso ou aquilo ficam bem lindos nos papéis e nos textos dos livros-regra. E não prestam para nada na prática. Ainda que em algum momento sirvam para trazer alguma segurança: conheço muita gente que só se sente confortável com a dinâmica do filho quando consegue chamá-lo de "reloginho". Nada contra reloginhos, mas simplesmente não dá para esperar que bebês sejam assim, muito menos tentar transformar birutas que despirocam ao mínimo sopro do vento em relógios digitais. Eu tive duas birutas, e sobrevivi para contar.

 

 

 

 

 

Birutas de carpas, com toda a simbologia do peixe que nada contra a corrente quando chega lá em cima se transforma em dragão, para celebrar o fim desta lista maternista. Imagem daqui

 

 

***

 

Texto republicado em virtude de recente investida da indústria dos substitutos ao leite materno, em forma do "70o Curso Nestlé de Atualização em Pediatria" , historicamente uma das grandes responsáveis pelos altos índices de desmame. A classe médica E a indústria. Vejam mais informações no MILC 

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