© 2017 Mamatraca - Site criado por Confia.Me

  • Grey Facebook Icon
  • Grey Twitter Icon
  • Grey YouTube Icon
  • Grey Instagram Icon

Como banir o refrigerante da escola do seu filho

12/09/2017

No passinho de formiguinha, uma vitória que celebramos com água gelada!

Meu filho acaba de chegar em uma EMEI nova, onde havia um hábito estabelecido de comemorar o aniversário das crianças com bolo (que é enviado pela terceirizada da prefeitura, chegou a ser cancelado no mês de agosto na reforma proposta pela Secretaria Municipal de Educação, que aparentemente voltou atrás) e, pasmem... refrigerante. 

 

 

 

O costume era pedir para as famílias doarem as garrafas. Quando nos deparamos com essa realidade, uma das grandes questões era: como conduzir esse assunto sem que se transforme em um cavalo de batalha entre famílias, gestão e professores?

 

Na nossa experiência com a escola pública até então em uma outra unidade, questões que tivéssemos tentado abordar em conselho escolar eram sempre tratadas como "supérfluas" ou interpretadas de forma pessoal. Os funcionários já muito acostumados com práticas ultrapassadas e que nunca colocavam a criança como prioridade, pareciam se ofender quando trazíamos algo para ser repensado, mesmo que fosse amparado por leis e pesquisas. 

 

 

 

Só que dessa vez, a coisa fluiu diferente. Foi assim: 

 

Em uma reunião de conselho, sem muitas delongas conseguimos deliberar que o refri não era uma coisa legal de estar na escola. Fomos pelo caminho óbvio, não faz bem, está provado, a escola é um espaço público e não deve oferecer. Se é um hábito da família, que seja mantido no universo privado. Ok. Refrigerante cancelado.

 

No entanto, precisamos, coletivamente como comunidade escolar levar mais uma vez esse assunto para uma reunião. A diretora dessa EMEI, totalmente comprometida em abrir os espaços de diálogo e fomentar o exercício da democracia, acatou um pedido dos professores que não puderam participar do primeiro encontro. E lá fomos nós debater de novo.

 

 

Estava claro que não precisávamos de leis apenas. Precisávamos tirar essa decisão coletiva, à partir de nossas relações. Eu fui preparada para perder, claro. Eu tenho total consciência de que quando questionamos uma prática estabelecida, especialmente se ela for contra um produto de largo alcance com muitas décadas de investimento em publicidade e em formação de tradição, estamos em um caso quase perdido.

 

Infelizmente, temos como humanos muito o que aprender sobre a diferença entre tradição e cultura. A cultura nos liberta, nos conecta com o mundo e com o outro. A tradição é construída (e no caso das tradições da indústria do alimento, com a ajuda de muito dinheiro e enganação). E pode ser ruim, opressiva, fazer mal. E deve ser questionada.

 

Refrigerante não é cultura na escola. É hábito ruim. É tradição ruim, construída sem consciência. Esse pensamento aprendi com Graça Machel, através de Mariana Sá, ativista do MILC que me ensinou sobre como diferenciar a cultura da tradição. 

 

 

Quando a pessoa acha que refrigerante é cultura, fica triste quando você questiona. Ela acha que você está questionando ela mesma. E se fecha na defensiva, proque é mesmo muito difícil negar algo que a gente acha que faz parte da cultura da gente. Chegamos a debater questões como "temos crianças de abrigo cuja única chance de tomar refrigerante é na escola". Percebem como a publicidade nos fez acreditar que refrigerante é bom, e isso está instalado lá no fundo da nossa cabeça e é bem difícil de ser quebrado? Associar os eventos felizes à refrigerantes é uma construção da tradição, não da cultura. 

 

(Nota: Eu estou plenamente consciente também da dimensão da fala de Graça, e é claro que essa musa não está falando de refrigerantes, mas lembram? Passo de formiguinha. Se não conseguimos questionar refrigerante, como vamos questionar racismo?) 

 

Pois bem, confesso que me preparei muito. Eu li todas as leis. Andei até desabafando ao vivo lá na fanpage tentando buscar apoio sobre essa questão, com um medo intenso de ser desrespeitosa com as pessoas que gostavam dessa tradição. Recomendo que leiam essa postagem para ver o material que eu tinha elencado sobre o refrigerante na escola, de minhas experiências prévias.

 

Além disso, busquei apoio no CODAE - que é a Controladoria de Alimentação Escolar. Minha intenção era de que eles oferecessem um parecer sobre o refrigerante na escola. Infelizmente até o dia da reunião, na morosidade do sistema público, eu não obtive resposta.

 

Chegou o dia do encontro e minha mãe precisou de mim. Eu não poderia participar do encontro. Eis que o imprevisível aconteceu: a EMEI do meu filho não ofertará mais refrigerantes para as crianças.

 

 

 

Novamente sem nenhuma briga, até mesmo os professores que na semana anterior defenderiam a presença dos refrigerantes na escola, chegaram dispostos a baní-lo para sempre da alimentação escolar. Como? 

 

Chegaram DISPOSTOS. Esse é o ingrediente que faltava na receita do bolo, que vou descrever aqui. Do que precisamos para banir o refrigerante da escola de infância? 

 

1) qualquer pessoa que questionasse essa tradição;

2) uma diretora capaz de exercer sua função e articular o espaço de diálogo, lidando com as dificuldades de construção da democracia, ou seja, uma diretora competente e comprometida;

3) conhecimento das leis e das melhores evidências para apoiar a conversa de forma racional, evitando desgastes de relações e que as pessoas interpretassem essa iniciativa como ataques pessoais, desviando o foco da conversa;

4) professores dispostos a refletir, aprender e acima de tudo, professores que enxergam a criança como prioridade absoluta, como deve ser o educador da infância; 

5) comunidade unida em prol desse mesmo objetivo, acima de suas opiniões individuais: um olhar coletivo sobra a infância, rumo à revisão de tradições ruins pelas crianças e não por suas justificativas adultas.

 

Quando as tradições ruins vão sumindo, sobra espaço para que floresça a cultura, que é o que nos nutre, nos alimenta, o corpo e também a alma.  

 

 

Vejam o que atualmente temos, em termos de leis e avanços por todo o país: 

 

Não há uma lei federal que proíba a oferta desse produto ruim e insalubre para as crianças quando estão na escola. Que pena. Mas no dia 08 de Agosto, a CCJ da Câmara aprovou o Projeto de Lei 1755/07, do deputado Fábio Ramalho (PMDB-MG), que proíbe a venda de refrigerantes nas escolas de educação básica (da educação infantil ao ensino médio), públicas ou privadas. 

 

Além disso o FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação) também proíbe a compra de refrigerantes com verba pública. Ou seja, o governo tem o entendimento de que isso não pode ser ofertado pelas crianças. As comunidades escolares estão dispostas a se alinhar à essa boa prática? 

 

Em alguns municípios, isso já está regulamentado por lei: 


• Florianópolis (SC): Lei municipal nº 5.853, de 04 de junho de 2001, que “Dispõe sobre os critérios de concessão de serviços de lanches e bebidas, nas unidades educacionais, localizadas no Município de Florianópolis”; 


• Santa Catarina: Lei estadual nº 12.061, de 18 de dezembro de 2001, que “Dispõe sobre critérios de concessão de serviços de lanches e bebidas nas unidades educacionais, localizadas no Estado de Santa Catarina”; 


• Paraná: Lei estadual nº 14.423, de 02 de junho de 2004, que “Dispõe que os serviços de lanches nas unidades educacionais públicas e privadas que atendam a educação básica, localizadas no Estado, deverão obedecer a padrões de qualidade nutricional e de vida, indispensáveis à saúde dos alunos”; 


• Paraná: Lei estadual nº 14.855, de 19 de outubro de 2005, que “Dispõe sobre padrões técnicos de qualidade nutricional, a serem seguidos pelas lanchonetes e similares, instaladas nas escolas de ensino fundamental e médio, particulares e da rede pública”; 


• Rio de Janeiro: Lei estadual nº 4.508, de 11 de janeiro de 2005, que: “Proíbe a comercialização, aquisição, confecção e distribuição de produtos que colaborem para a obesidade infantil, em bares, cantinas e similares instalados em escolas públicas e privadas do Estado do Rio de Janeiro, na forma que menciona”; 


• Minas Gerais: Lei estadual nº 18.372, de 04 de setembro de 2009, que “Acrescenta dispositivos à Lei nº 15.072, de 5 de abril de 2004, que dispõe sobre a promoção da educação alimentar e nutricional nas escolas públicas e privadas do sistema estadual de ensino”; 9 Coordenação de Comissões Permanentes - DECOM - P_5369 CONFERE COM O ORIGINAL AUTENTICADO PL 3606/2015 


• Campo Grande (MS): Lei municipal nº 4.992, de 30 de setembro de 2011, que “Define normas para a comercialização de alimentos nas cantinas comerciais da rede pública e instituições privadas de educação básica de Campo Grande-MS e dá outras providências”; 


• Distrito Federal: Lei distrital nº 5.146, de 19 de agosto de 2013, que “Estabelece diretrizes para a promoção da alimentação saudável nas escolas da rede de ensino do Distrito Federal”; 


• Paraíba: Lei estadual nº 10.431, de 20 de janeiro de 2015, que “Proíbe cantinas e lanchonetes instaladas em escolas públicas e privadas de educação infantil, fundamental e média, de venderem bebidas com baixo teor nutricional, como os refrigerantes”

 

 


Pois bem, inspirem-se em mais esse conto de uma mãe cansada incansável para promover também a mudança política que você acredita que o mundo precisa. Invocando de novo Graça, por todos e cada um. 

 

 

Please reload

Gostou do conteúdo? Compartilhe!

Gostou do Texto? Apoie para o que o Mamatraca siga livre de publicidade corporativa!

Não pode doar? Comente, curta, compartilhe e volte sempre!

Please reload