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Boa alimentação das crianças não é responsabilidade (só) da mãe.

16/11/2017

Na escola municipal meus filhos basicamente só comem pão, arroz, feijão e macarrão. Os lanches levam muito leite, que eles não tomam. Os pães normalmente são aqueles industrializados cheios de gordura hidrogenada. O macarrão leva molho com carne, então para eles é sempre puro. “Macarrão com vento” eles falam. As refeições não tem variedade de grãos. Ainda bem que existem frutas e saladas. Até pouco tempo as verduras eram todas misturadas nas carnes. Então nem isso eles comiam.

Acho que deveria ser crime colocar carne nos legumes e molhos nos lugares de alimentação pública. Não aguento aquelas saladas do buffet salpicadas de presunto, ou aquela lentilha com bacon boiando. Por que? Por que? Eu sou à favor do separatismo total das carnes e dos legumes na alimentação coletiva. Quem quiser, mistura no prato.

Essa falta de cuidado no cardápio das escolas deixa as #criancasvegetarianas sempre com poucas opções de comida. E não é exclusividade da #escolapublica.

É um desconhecimento (e talvez uma falta de interesse mesmo) geral. Já estivemos em escolas particulares que cobravam 15 reais a refeição e serviam só soja no lugar da carne. Soja é aquela coisa que quem não manja nada de vegetarianismo vai querer sempre entuchar no vegetariano.

Quando eu fui conversar sobre isso, a dona da escola me pediu para oferecer um curso de orientação para a nutricionista e merendeiras. Veja você. Paga a comida e ainda tem que ensinar a fazer. Eu já estava tão de saco cheio do universo particular que essa foi uma das muitas razões de eu ter migrado para a escola pública. Onde eu continuo nessa saga de conversar, reunir, debater. Mas pelo menos os impactos dos meus esforços podem beneficiar uma gama mais ampla de pessoas.

A oferta de frutas nas escolas do município de São Paulo é relativamente boa. Assim... ok. Nada incrível. Tinha que ter mais quantidade e variedade. Na minha opinião, em todas as refeições. As tias das cantinas dos dois são gentis, e eles narram que “quando podem” elas fazem um ovinho.

Quando a gente fala de alimentação infantil temos que ter a clareza que ela é TAMBÉM responsabilidade do estado e da sociedade. Mas ora, ora, vocês mães agora vão ficar falando que não é responsabilidade de vocês cuidar dos filhos?

Isso mesmo! Não é responsabilidade exclusiva nossa. E não fui eu quem inventou isso, está na constituição artigo 227. Da um Google, é de encher os olhos d’água.

“É dever do estado da família e da sociedade...” - tenho pra mim que se meu filho está na escola pública eu e ela dividimos igualmente essa responsabilidade: eu sou família, a escola é estado AND sociedade. Ainda por cima, de quatro refeições no dia, eles têm três na escola. Ou seja... o que eles comem ou não comem não é só minha culpa.

Né non?

Agora vamos falar na minha parte. Como é que eu tenho feito para garantir “boa alimentação” das crianças?

Ainda que eu seja bem crítica da alimentação nas escolas eu não sou o melhor exemplo do mundo em casa. Hipocrisia? Não acho não. Acho isso bastante natural: a capacidade que o indivíduo tem sozinho de promover qualidade é bem diferente da capacidade que tem as instituições. Oras, a cidade de São Paulo é a quinta maior do mundo. Eu sou só uma mãezinha metida a besta com altos boletos pra pagar.

Ainda assim, tento fazer escolhas medianas. No dia da manifestação que parou a paulista e derrubou a ração do João Dória, meus filhos jantaram biscoitos.

“Ora, mas você foi para a paulista pedir alimentação saudável e seus filhos jantaram biscoitos?” Pois é. Se eu contasse com um sistema público que usa todo seu poder para garantir o melhor para as crianças, conforme constituição, eu não precisaria arrastar três crianças quinta feira seis horas da tarde pro vão livre do MASP não é mesmo?

Além de todas as mazelas da vida de uma ativista, trabalhadora autônoma com muitos filhos, eu não gosto muito de cozinhar, acho um porre. Perde tempo, suja tudo e eu acho que essa história de atrelar comida a afeto é só para manter as mulheres ainda mais reféns do serviço doméstico. Tô fora. Mas eu gosto de comer comida, boa, bem feita. Que bom que tem gente no mundo que gosta de cozinhar.

Eu queria mesmo restaurantes populares em todas as esquinas, com comida caseira de verdade a preços acessíveis. Nada de farinha de resto, como propôs o prefeito. Comer bem, simples e barato: acho digno e acho possível. Nos libertaria de um monte de funções não é mesmo? Alem de nivelar a qualidade da comida, mantendo as pessoas mais próximas da igualdade: a boa comida do pobre deveria ser a mesma boa comida do rico.

Enquanto isso não existe, aqui em casa nós vivemos de #bolsafamilia. Numa versão ajustada: a sacola de congelados que minha mãe prepara e me dá de tempos em tempos. Acho triste quando alguém fica vociferando contra as pessoas que tem benefícios do governo - como o #leveleite que a prefeitura cortou sob alegação de que as pessoas faziam “mal uso” do produto porque vendiam para comprar outras coisas. Acho triste porque todo mundo precisa de ajuda, especialmente para cuidar bem de filhos. E qual é o problema de vender o leite pra comprar outra coisa? Só porque é pobre tem que tomar aquela porcaria sem reclamar?
 


Normalmente as pessoas que tem mais ajuda, mais privilégio (seja de privilégio racial, de classe, da mãe, da família, da empregada, da babá, do motorista, da herança) são quem mais critica os programas sociais.

Na minha bolsa família sempre tem lentilha, ervilha e grão de bico. Minha mãe batiza tudo com altas doses de batata doce. Eu garanto uns leguminhos precários e preparo uns caldos para fazer outras comidas com legumes. Eu, como adulta, como porcarias escondida. E já fui muito melhor no controle de pragas (doces e altas doses de corantes) nos primeiros filhos. A terceira é doida por chocolate desde 1 ano. Acho péssimo... mas fugiu do meu alcance.

Não tem muito o que reclamar do meu universo particular. Privilégio das crianças, com vó quituteira e especialista em cozinha vegetariana, pé de ora pro nobis no quintal e uma mãe com altas capacidades de fazer macarrão com legume.

Então vamos seguir cobrando pacientemente do sistema público que dignifique a vida das crianças através da alimentação.

O objetivo deveria ser mais frutas e verduras, menos leite, menos pão, menos carne. Toda vez que a gente fala em reduzir carne e pão, o povo surta.

É natural que já estejam me xingando a essa altura do texto, porque pode tudo - até oferecer ração pra criança - mas dar menos dinheiro para o agronegócio é heresia

Mas é uma questão de paciência instinto timidamente que temos que fazer essa mudança, alinhada inclusive aos objetivos de sustentabilidade da onu. É interessante para alimentação da massa de mais de um milhão de crianças. É uma alimentação mais saudável e especialmente mais sustentável. E sim... mais fácil de preparar e mais segura do ponto de vista da contaminação dos alimentos.

Eu conto que virei vegetariana para diminuir a distância entre o discurso e a prática (não acredito em ambientalismo carnista). Mas na verdade foi por preguiça mesmo. É MUITO mais fácil manejar uma alimentação baseada em vegetais. Não tem erro. Tava orégano, alho e sal fica tudo gostoso.

A última parte dessa história é: eu estive na audiência pública convocada na Câmara dos Vereadores na quinta passada. Eu era uma das pessoas na mesa, que falaria como mãe de escola pública.

Mas o poder executivo, através do Secretário de Educação não apareceu. Nem ele, nem nenhum outro convidado para a mesa. Entre conselhos de segurança alimentar da sociedade civil e o próprio Codae, que é quem decide sobre a merenda escolar... ninguém estava interessado em discutir a merenda.

Deve estar bom para eles né?  

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