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Por que questionar o concurso de Miss e Mister Caipirinha?

04/06/2018

Chega finalzinho de maio e todo mundo começa a se preparar para o folguedo mais lúdico do Brasil: festa junina! Que não custa relembrar, é talvez a maior festa do país, num monumental sincretismo religioso, que parte da celebração pagã pela colheita, deuses de fertilidade e abundância e se mistura com santos católicos, recebendo ao longo do tempo influências regionais nos quatro cantos do país e do mundo.

 

Nas escolas tipicamente, as festas juninas são confraternizações que partem de um princípio arraigado na cultura, mas também se modificam com as influências da modernidade. E de certo modo, de um conhecimento mediano de cultura de infância que insistimos em manter. A festa junina escolar normalmente acumula brinquedões infláveis de todos os tipos, alimentos norte-americanos e danças readaptadas que "para agradar as crianças" invocam ídolos das paradas de sucesso para dentro do formato tradicional da quadrilha. Um festerê, sô. 

 

Fui procurar imagens de fogueiras nas festas juninas escolares. Me deparei com uma miríade de fogueiras de EVA e papel celofane. Essa imagem aqui é print do youtube de uma escola Waldorf, onde parece ser o único reduto onde as crianças tem direito ao fogo e ao contato com os símbolos naturais das festas culturais. Só aqui uma reflexão, o fogo tem um custo ambiental e financeiro bem menor do que as decorações tradicionais, cheias de plástico e borracha. E a experiência sensível para as crianças, proporcionalmente inversa. 

 

As festas juninas escolares, todos devem saber, são uma das maiores fontes de arrecadação das escolas. Tanto no universo particular como no público, é o momento em que a comunidade levanta recursos para a escola das crianças, através da compra dos ingressos, alimentos, brincadeiras e demais estímulos de consumo típicos desse encontro. 

Aqui tem uma matéria muito legal do UOL sobre o caipirismo na escola, e como estamos perdendo a chance de fazer uma festa interessante do ponto de vista cultural, para focar apenas na esteriotipia vazia dessa data. "Em vez de se fixar quase que exclusivamente no caipirismo, a escola poderia abrir um pouco mais o seu foco e alcançar os demais aspectos da festa, como o fenômeno do solstício, ancestralmente constitutivo desse ciclo festivo, as as comidas típicas regionais simbolizando as primícias da colheita e buscando imprimir na consciência juvenil novos parâmetros para a relação campo e cidade, que não esse caipirismo, que só visa reproduzir o preconceito contra o homem rural."

 

Para muitas escolas, especialmente as públicas, a arrecadação de festa junina é essencial para o bom desenvolvimento dos projetos, no universo da educação sempre tão carente de recursos financeiros, em uma sociedade que além de não entender muito de infância, também parece não se importar com educação na hora de decidir para onde vão os milionários recursos de seu país, estado ou cidade. 

 

 

O problema é quando a arrecadação de festa junina supera as balizas mínimas de cuidado e respeito com as crianças, de ética e bom trato. Como é o caso do concurso de Miss e Mister Caipirinha, que enquanto eu escrevo essas singelas palavras, aterroriza a comunidade de mães críticas como eu. Já estão chegando os bilhetinhos nas agendas  anunciando que a escola de vários de nossos filhos está promovendo uma competição entre crianças através da compra de votos. 

 

Disfarçado de "cultura" esse concurso é danoso e equivocado. A ideia é que a comunidade escolar "escolha" uma menina e um menino para serem os "grandes vencedores" do concurso, recebendo a honraria de Miss e Mister da festa. Mas como é feita essa escolha? O título vai para a criança que "vender" mais. Seja a rifa da festa junina, o ingresso para a festa, conseguir arrecadação de refrigerante que depois será vendido, retornando em aporte financeiro para a escola: o concurso de miss e mister caipirinha coloca as crianças como promotores de venda de qualquer coisa, para que compitam entre si por um título que nada diz sobre infância, educação ou sequer sobre a tradição junina. Se a escola do seu filho está promovendo esse concurso, separei alguns argumentos que talvez possam ser úteis para um diálogo franco sobre essa "tradição" tão equivocada. 

 

 

 

COMPETIÇÃO X COOPERAÇÃO

O concurso estimula a competição, em uma sociedade que necessita urgentemente mudar os paradigmas de educação, dentro da escola e fora dela, para modelos cooperativos. 

 

CRIANÇA NÃO TRABALHA

O concurso estabelece atividades comerciais para crianças, que são motivadas a arrecadar dinheiro ou recursos materiais para vencer. Pode parecer engraçadinho, mas isso está mais ligado a trabalho infantil do que a brincadeira. Óbvia falta de respeito com a infância (criança não trabalha e criança não é consumidor).

 

A CULPA É DOS PAIS

O concurso promove estresse familiar, uma vez que as famílias que não puderem atender a demanda de seus filhos, são colocadas em xeque. Assim como na lógica da publicidade infantil, caberá à família dizer "não" à uma demanda que não foi criada por ela, e usou da ingenuidade da criança para finalidades mercadológicas. É injustiça gerar demanda nas crianças e depois jogar para a família resolver. 

 

CORONELISMO

O concurso passa uma mensagem eleitoral bem absurda. Quem "ganha" é quem tem mais apoiadores de recursos, familiares mais ricos, mais gente dando dinheiro. O que é o oposto do que precisamos também como sociedade, afinal, compra de votos é notadamente corrupção.

 

CRIANÇA NÃO NAMORA, NÃO É CASAL, NÃO PRECISA PASSAR VERGONHA

O concurso expõe crianças ao ridículo constrangimento, de serem colocadas em um palco, receberem faixas e homenagens que normalmente celebram um "casal" de crianças. Um conceito adultizante e sem nenhum respaldo pedagógico. 

 

AQUI NÃO É MONARQUIA

O concurso ignora completamente todo o outro contingente de criança que "falha" na missão de comprar votos. À exemplo dos reis e rainhas de bailes escolares norte-americanos (escolhidos pelo voto em sua beleza/popularidade/influência entre os colegas),  miss e mister caipirinha só promove a frustração generalizada de todas as outras crianças da escola. Menos dois vencedores. Uma lógica perversa de comprovar a validade das diferenças de classe, e hierarquizar crianças. 

 

O MITO DA MERITOCRACIA

O concurso reforça a ideia equivocada da meritocracia. Como se quem "conseguir arrecadar mais" fosse aquele mais esforçado, enquanto sabemos que arrecada mais é quem tem mais privilégios. Uma atividade equivocada para um espaço de educação. 

 

PALAVRA DE PSICÓLOGA

Fui perguntar para uma psicóloga, do ponto de vista da construção da identidade de crianças e jovens, se esse concurso poderia contribuir ou atrapalhar em alguma coisa. Simone Cortez, foi categórica: 

 

"É uma grotesca exposição e objetificação da imagem das crianças e da infância. Um constrangimento impelido por adultos, que exploram a sua imagem, introjetando a ideia de que a sua exploração física (na forma de desfiles e prêmios, como faixas e coroas), é mais uma mercadoria de venda e/ou troca. E quem não consegue vender (se vender) o suficiente, também é constrangido, pois são apontados como perdedores, no momento em que não ganham o concurso e não sobem ao palco.Nessa competição, ninguém ganha. Nem quem “venceu” e teve sua imagem exposta como troféu, e nem quem perdeu, porque não teve a “recompensa” pelos seus esforços (venda) alcançada, dando um ponta pé inicial para associar a construção da sua auto-estima ao resultado de algo externo a elas. O seu valor interno, não se aplica aí (nesses concursos). Não serve de nada."

 

 

E o que dizem as pessoas que apoiam o concurso de Miss e Mister caipirinha nas escolas? Na maioria das vezes, as pessoas não se deram a chance de refletir sobre ele. E naturalmente, quando questionados, entram em modo defensivo. Só que ss argumentos à favor do concurso de Miss e Mister caipirinha normalmente são só três, e eles também podem ser contra-argumentados com tranquilidade: 

 

1) Precisamos do dinheiro

Façamos então uma arrecadação sem competição, de ítens usados em bom estado para um bazar no dia da festa junina. Vamos organizar uma equipe de voluntários, entre docentes, equipe de apoio da escola e famílias para trabalharmos na organização dos ítens, venda das peças por preços acessíveis e prestação de contas para a comunidade. Se não queremos nós assumir trabalho para arrecadar recursos, não devemos imputar essa responsabilidade para as crianças. Os bazares além de circular recursos parados nas casas das pessoas, ajudam outras pessoas a adquirirem coisas que precisam por preços baixos. É sustentável e inteligente ter um bazar na escola. 

 

 

 

2) É uma tradição

Não há problema nenhum em questionar tradições, Tradições podem ser questionadas, e é de fato, questionando tradições, que a humanidade avança. Vamos lembrar que em algumas culturas era tradição vender as filhas mulheres quando elas atingiam a puberdade. Não somos à favor disso não é? Ainda bem que questionamos tradições. Uma grande mulher chamada Graça Machel, que foi ministra da educação em Moçambique, defende que as tradições nos oprimem, e passam de geração em geração os sistemas que nos impedem de evoluir como humanidade. Enquanto a cultura nos liberta, é o que da voz à nossa identidade e nos emancipa enquanto humanidade. Veja, a festa junina tem que ser um evento cultural, da nossa identidade, e não arraigado em tradições falidas que colocam o desenvolvimento do grupo de crianças em risco. 

 

 

 

3) Quem não quer não participa.

Isso é o que chamamos de falácia. Porque a escolha de não fazer o concurso (que não tem nenhum valor de aprendizado para a comunidade) deve ser da escola enquanto instituição, e não das famílias ou crianças enquanto indivíduos. É injusto colocar a responsabilidade nos indivíduos, de algo que a escola criou.  Quando a escola, usando seu status de instituição convoca a todos para uma atividade, não se trata de uma "escolha" participar ou não. Depositar na criança ou na família a pseudo-escolha de participar ou não é promover a discordância e nos afastar da possibilidade de reflexão. Se entendemos a escola como uma estratégia maravilhosa para o exercício da vida e da cidadania, devemos poder conversar sobre as atividades que a escola propõe, e inclusive retirar aquelas que notadamente fazem mal para a criança, que deve ser prioridade número um no ambiente escolar. Então, não se trata de individualizar a responsabilidade. Se trata de exigir do ambiente escolar que tome a atitude - como queremos dos nossos governos - de fazer boas escolhas para nossas crianças baseadas nas melhores evidências. 

 

 

 

 

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